Recorde mundial

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A Bélgica está estabelecendo um recorde mundial difícil de ser batido. Contudo, infelizmente, não se trata de nenhum assunto do qual os belgas possam se orgulhar: o recorde em questão envolve o tempo sem um governo nacional estabelecido. Há um ano e meio (mais de 500 dias!) debates infrutíferos se alastram e a crise política nacional se intensifica…


Para um país de 10 milhões de habitantes (população equivalente apenas à cidade de São Paulo), a organização política da Bélgica é extremamente complexa de se entender (segundo os próprios belgas!). O país é composto por três regiões e três comunidades principais, bastante distintas entre si – tanto em termos culturais como políticos. Três também são as línguas oficiais belgas, mas isso não significa que as regiões do país inteiro se comuniquem entre si nas três línguas, muito pelo contrário (à exceção da região de Bruxelas).

A região de Bruxelas-Capital é a mais cosmopolita, que move o “coração da Europa” abrigando as principais Organizações Internacionais e sendo a capital de fato da União Europeia. Na Valônia, por sua vez, se encontram os francófonos, em Flandres os flamengos (língua holandesa) e na fronteira com a Alemanha a reduzida comunidade germanófona (mapa abaixo). [O vídeo da série “For dummies” sobre o assunto é crítico, mas bastante ilustrativo, disponível aqui.]

Em meio a toda essa diversidade, a Bélgica tem uma monarquia parlamentarista como sistema de governo, o que significa que existe um rei que exerce o papel de Chefe de Estado e (deveria existir) um Primeiro-Ministro no papel de Chefe de Governo. E aí é que se encontra a principal dificuldade: há cerca de um ano e meio o país não chega a um acordo em relação à formação do governo federal. [No começo do ano aconteceu até a chamada “Revolução das Fritas”, promovida pelos jovens belgas em protesto contra a situação.]

Essa semana, com o fracasso das negociações políticas (em relação à formação do governo) e econômicas (em relação ao Orçamento Nacional), ocorreu a renúncia de Elio di Rupo – líder francófono que exercia o cargo de Primeiro-Ministro interinamente por indicação do rei com o objetivo de buscar consensos – a crise se intensifica. E, pela primeira em todo esse tempo, hoje a União Europeia cobrou publicamente uma resolução da questão o mais rápido possível.

Se não bastasse a tensão política, hoje ainda foi divulgado mais um indicador negativo, dessa vez em termos econômicos: a classificação internacional da Bélgica no ranking financeiro da agência Standard & Poor’s foi rebaixada de AA+ para AA, em clara referência às dificuldades econômicas que atingem toda a Europa nesse momento.

Para um país cujo lema, paradoxalmente, é “A União faz a força”, a Bélgica enfrenta dificuldades históricas em termos de diálogo entre suas comunidades. O momento político e econômico europeu é crítico e a Bélgica, tal como a maioria dos países do continente, não passa ilesa por ele. Enquanto isso, o recorde mundial belga de tempo sem governo – infelizmente – só aumenta.


Categorias: Economia, Europa, Política e Política Externa


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