Reconhecer o problema

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O sistema internacional é como um clube. Pelo menos, quando pensamos em Estados. Para que aquela unidade política seja aceita entre os demais, não basta cumprir alguns requisitos próprios, mas ser aceito pelos “colegas”. Quando pensamos no tal Estado Islâmico, por exemplo, mesmo que consigam eventualmente assegurar um território e um governo, provavelmente jamais serão reconhecidos pela comunidade internacional por conta das atrocidades cometidas para chegar a essa situação. Por isso causa muita euforia a notícia de que parlamentos de países europeus (um dos últimos focos de resistência ao movimento) estão debatendo sobre leis para reconhecer o status de Estado para a Palestina – a Suécia mesmo já passou por cima disso e se tornou o primeiro Estado do continente a fazer isso há algum tempo. O caso mais recente foi uma votação simbólica no parlamento da França, mas algo parecido já ocorre na Inglaterra e Espanha.

O que isso tudo significa? Por mais que a aceitação internacional crescente signifique uma pressão enorme pela resolução pacífica, não representa necessariamente uma possibilidade de fim das hostilidades com Israel. O problema reside em dois pontos. Primeiro, a tendência é de endurecimento em Israel, com a consolidação de radicais e a possibilidade de uma legislação que tornaria o estado ligado à religião. Segundo, o reconhecimento do Estado Palestino como tal reduz a possibilidade de funcionar uma solução que é possivelmente uma das mais vantajosas, a de um Estado único.

Quanto ao primeiro ponto, o premiê Netanyahu demitiu nesta semana membros moderados do governo e dissolveu a coligação, fazendo com que fosse necessária uma eleição em 2015. A tendência é que se mantenha no poder, com uma frente de partidos nacionalistas e religiosos. O grande temor é a aprovação de uma lei que define o país como uma pátria de judeus, o que implicitamente criaria uma diferenciação entre cidadãos – e marginalizando, por exemplo, os de origem árabe. Esse tipo de política radical reflete o fortalecimento do movimento conservador no país, e é um claro empecilho às negociações de paz. Mais que isolar o país politicamente, essa medida pode ser usada como munição para países árabes levarem um projeto de resolução no Conselho de Segurança da ONU pedindo o fim das ocupações israelenses – que causará dano político de maneira inegável, sendo vetado ou não. Ao mesmo tempo, Israel está fortalecido no cenário regional, e o impacto destas políticas é uma incógnita.

Já no segundo ponto, se não impeditivo, o reconhecimento do Estado Palestino atrapalha um dos planos mais sensatos que une intelectuais de ambos os lados do conflito, que seria a solução de um Estado com as fronteiras pré-1967 e um governo conjunto. Basicamente, reconhecer a Palestina como Estado independente significa que a comunidade internacional nas entrelinhas não vê a solução de um Estado unificado como viável, ao mesmo tempo em que se configura como uma solução que contempla a maior parte dos interesses envolvidos, com o controle de territórios em disputa e a livre circulação de cidadãos.

Como sempre, apesar do clichê, o destino da crise entre palestinos e israelenses fica ao sabor de desenvolvimentos futuros, mas como o quadro se configura hoje, uma solução ainda é impensável.


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