Re-START

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Novas condições históricas aliadas a novas diretrizes estratégicas de governo permitem aos Estados tomarem novas decisões em temas delicados de suas políticas externas. Um exemplo claro disso é o caso das décadas finais do período de Guerra Fria no qual as duas grandes potências, Estados Unidos e a Rússia, iniciaram um diálogo sobre a não proliferação e a limitação de armas nucleares num contexto em que o risco de guerra nuclear tinha atingido o seu ápice.


Para entender essa afirmação basta lembrarmos a conhecida Crise dos Mísseis em Cuba, no início da década de 1960, período em que a mútua destruição assegurada (do conhecido trocadilho da sigla em inglês MAD – “mutually assured destruction” –) quase foi levada às últimas conseqüências. Assim, a partir da década de 1970, o período histórico conhecido como “detènte” abarcou a distensão entre esses dois países e possibilitou algumas negociações em prol da limitação dos arsenais nucleares com a assinatura de acordos como SALT I e II (sigla em inglês para Acordo Estratégico de Limitação de Arsenais), assinados respectivamente em 1972 e 1979.


Assim, desde o fim da Guerra Fria que podemos falar em um novo período histórico. Isso significa novas possibilidades se avizinhando no horizonte dos países. A mudança de relacionamento entre os ex-protagonistas do mundo bipolar agora deu espaço para novos diálogos nesse delicado campo nuclear. Acordos mais rígidos para a limitação de arsenais nucleares emergiram como o START I e o START II (inglês para Tratado Estratégico de Redução de Armas), assinados no início da década de 1990. Podemos até falar que tentaram ser rígidos demais para as condições transitórias e que esses países não estavam preparados para as condições propostas, já que as proposições do primeiro nem chegaram a ser completamente cumpridas enquanto que o segundo jamais entrou em vigor apesar de ter sido ratificado por ambas as partes.


Apesar de esses tratados representarem avanços mais simbólicos do que realmente concretos na limitação de armamentos nucleares considerando-se as suas proposições, a administração Obama abriu um novo precedente para a cooperação entre esses países tidos há muito como rivais. O START I expirou ao final de 2009 e longas negociações para um novo tratado vinham sendo realizadas. E a espera chegou ao fim. Na sexta-feira, após uma longa conversa ao telefone com Medvedev, Obama afirma que as bases para o tratado mais ousado referente à redução dos armamentos nucleares dos últimos anos foram estabelecidas. Segundo Obama os arsenais serão reduzidos em até 30% e que as negociações serão finalizadas na República Checa no mês de abril.


Parece-nos um grande avanço. Mas como tudo na política internacional temos que olhar um pouco mais afundo e tentar tomar o cuidado para entender o que os discursos representam. Por isso, um novo tratado nuclear pode não necessariamente representar os esforços para redução dos arsenais mas sim mostrar ao mundo que tais esforços existem. Isso porque o processo de ratificação e entrada em voga é longo, pois demanda aprovação no congresso dos dois países e a situação interna de Obama não é muito satisfatória. É aquela velha assunção maquiavélica do Lobo e da Raposa. Não há a necessidade de que suas ações concretizem suas intenções, elas poderiam apenas parecer reais que causarão os efeitos semelhantes.


Assim, se efeitos são realmente buscados, pode-se dizer que o Oriente Médio é seu epicentro. Os EUA e Rússia precisam mostrar seu comprometimento com o regime internacional de não-proliferação antes de cobrar posturas de outros Estados. Os discursos sempre devem parecer convincentes para que se consiga retirar novas posturas de países estratégicos como a China. Nos planos internos temos Obama buscando reconquistar apoio do congresso e uma Rússia que não é mais capaz economicamente de manter grandes arsenais. Por isso é interessante notar essas motivações e efeitos secundários (ou nesse caso até poderíamos dizer primários). Assim, o progresso em direção a redução de armamentos é lento; a pressão internacional gerada, imediata.


Categorias: Organizações Internacionais


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