Radicalizando

Por

Não há nada mais comum na história da humanidade do que os ditos radicalismos. De modo geral e bem simplista, “radicalizar” seria levar certa posição ou visão de mundo às suas últimas conseqüências, em outras palavras, ao extremo. Os efeitos desse tipo de posicionamento são, na maioria dos casos, severos.

Exemplos não faltam na história da humanidade. Na contemporaneidade mais ainda. Pode-se dizer que a proibição do uso do véu islâmico em alguns países europeus é um tipo bem claro de radicalismo, que, no caso, faz uso da máquina estatal. Observa-se a tentativa de se pintar de uma única cor o mosaico da multiplicidade que aflorou na Europa.

Outro exemplo, este, um pouco mais conhecido, e, maior alvo de críticas, é o dito radicalismo islâmico ou fundamentalismo islâmico no Oriente Médio. A existência desse tipo de radicalização nas sociedades árabes abriu precedentes para uma confusão entre islamismo e terrorismo, que após os eventos de 11 de setembro se agravou.

Destarte, para muitos, a responsabilidade desses tristes eventos se estendeu, dos terroristas membros da Al Qaeda, para todos os praticantes da religião islâmica. E criou outro tipo de radicalização, agora na sociedade estadunidense. Uma espécie de anti-islamismo.

 

Entrevista do pastor a uma rede de televisão estadunidense

O mais recente efeito deste anti-islamismo foram as declarações de um pastor estadunidense de que liderará o “dia internacional de queimar o Alcorão“, a ser realizado no aniversário dos eventos de 11 de setembro. Nesse caso toda semelhança não é mera coincidência. É mero preconceito e radicalismo (para outra entrevista clique aqui).

A preocupação do governo estadunidense com o caso é evidente. Ainda mais quando, segundo declarações do próprio pentágono, os Estados Unidos estão mais próximos de dizer que suas estratégias no Afeganistão estão surtindo efeitos positivos. Um evento como esse pode muito bem aumentar os níveis de instabilidade, complicando mais os frágeis avanços.

Lembremos que um ato dessa magnitude corroboraria a visão de antiamericanismo no Oriente Médio, já que não afetaria somente a Al Qaeda, o Hamas ou o Hezbollah, mas toda a população de crença islâmica.

Agora os Estados Unidos estão observando a adolescência dos filhos de sua alongada campanha de Guerra ao Terror e os radicalismos que dela emergiram. A OTAN, o governo e diversos outros setores da sociedade agora lutam para controlar o ódio alimentado pelo próprio país em governos anteriores. E agora José, digo, Obama? Como lidar com isso?

[observação histórica]: Lembremos que o estopim para a Primeira Guerra Mundial foi um ato de radicalismo. O assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em solo austro-húngaro pode ser considerado uma espécie de ato de radicalização do sentimento de pan-eslavismo que havia no período. Não deve-se considerá-lo como a unica causa adequada ao evento, mas pode-se com certo grau de coerência, dizer que o estopim teve raízes no radicalismo de uma ideia.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


1 comments
Mário Machado
Mário Machado

Longe de discordar do autor, que aponta bem quão nocivo pode ser o arrebatamento das sociedades por movimentos que atuam para anular a racionalidade substituindo-a por uma mentalidade de turba, ou algo do gênero. Isso claro sempre visa a realização de posições políticas de grupos que se manifestassem o que querem mesmo não teriam apoio, pra dizer o mínimo. Mas, uma coisa sempre me chama atenção em nós analistas internacionais (pós-graduados, graduados ou em formação) a nossa facilidade para apontar o dedo para o chamado ocidente e nossa tendencia de transigir mais com os orientais. Nesse caso os muçulmanos. Por que digo isso por que tendemos a não nos escandalizar-mos quando alguém é preso e deportado por fazer "proselitismo religioso", ou seja, um ato de intlorancia de um estado. Mas, estamos prontos a acusar atos privados. Agora eu não sou ombudsman de nossa profissão nem possuo superioridade moral que me faça a padronizar os pensamentos. Por sinal teria nojo de mim se fosse assim. É só uma observação-provocação, que pode ser uma grande sacada ou uma grande besteira.Abs,