Racionalizando as emoções

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Até que ponto a racionalidade orienta as ações dos Estados? Há teorias nas Relações Internacionais que apontam que os agentes estatais tomam decisões em função de cálculos estratégicos que levam em conta fatores como o poder que têm em relação a outros agentes. Quando o risco de perder é menor do que o de ganhar, a decisão é tomada.

Esta semana, a Argentina tomou uma decisão controversa. A Grã-Bretanha, detentora da soberania sobre as ilhas Malvinas, anunciou o início da exploração de petróleo na região. Nosso vizinho, então, anunciou que todo navio que passe pelos arredores transportando equipamentos (entre os quais materias para construção de plataformas de exploração de petróleo) deve ter autorização do governo argentino.

Isso significa, na prática, que o governo britânico deve pedir autorização para transportar qualquer coisa para um território que é seu. Mas o que motivou os argentinos a tomarem uma decisão que, do ponto de vista diplomático, é tão incisiva?

A questão das Malvinas para os nossos vizinhos é algo que mexe com algo difícil de quantificar ou racionalizar, quem dirá colocar em cálculos estratégicos: a honra. Quem já visitou a Argentina sabe que a coisa é séria por lá. Hinos, monumentos, histórias, veteranos de guerra e os dizeres “las Malvinas son argentinas” estão por todo lado.

Ver os britânicos agora “roubando” as riquezas argentinas seria uma razão razoável para tomar medidas que impeçam a sensação de perda e que mexam com uma ferida ainda aberta. No entanto, por mais que esse sentimentalismo faça um contraponto a questão da racionalidade dos Estados, há outros fatores bem mais objetivos que nos ajudam a entender nossos vizinhos.

Em primeiro lugar, o motivo que leva os navios britânicos às Malvinas já explica muita coisa: petróleo. Não é preciso falar muito sobre este tema, mas segurança energética é coisa séria para qualquer país. É preciso energia para crescer e, em países frios como a Argentina, até mesmo para sobreviver no inverno. Infelizmente, os argentinos não possuem boa infraestrutura energética e um pouco mais de petróleo sempre vai bem. Aliás, já se sabe de muito tempo que há petróleo nas Malvinas…

Outro fator importante: por conta do potencial de conflitos, há resoluções da ONU que determinam que nenhum dos dois países podem tomar medidas que afetem as ilhas ou a região sem negociação prévia. Portanto, os argentinos parecem ter bons argumentos para retaliarem a exploração de petróleo no local.

Além disso, se recorrermos à história, veremos que uma das principais motivações da tentativa de invasão às Malvinas em 83 foi o “reavivamento” da ditadura num momento de crise aguda. Recorrer ao orgulho nacional em tempos de crise é uma artimanha comum e que muitas vezes dá certo. A população desvia o foco dos problemas e luta com sua vida pela Nação.

E como está a Argentina hoje? Crise econômica, política, insatisfação popular e baixíssima aprovação do governo, que também já não tem mais apoio do congresso. Não é impossível aceitar a idéia de que o estardalhaço todo em torno da exploração do petróleo nas Malvinas tenha algo relacionado coma situação interna do país, tal como em 83 e, evidentemente, em muitíssima menor medida. (Mais informações gerais sobre o tema podem ser acessadas aqui, aqui e aqui.)

Portanto, no episódio recente, é evidente que há questões que não se medem ou calculam, mas que fazem diferença e que são consideradas em qualquer decisão política. Também parece haver coisas bem racionais, como os interesses nada emocionais no petróleo do arquipélago.

O que se constata, muitas vezes, é que fatores emocionais impulsionam, intensificam, justificam e/ou encorajam decisões racionais…


Categorias: Américas, Conflitos, Polêmica


3 comments
Alcir Candido
Alcir Candido

Olá, Jéssica. Então, não duvido nada que eles sumam mesmo,mas será que a posição das ilhas, do ponto de vista geoestratégico, ainda mais agora com o pré sal do Brasil e a projeção maior do nosso país, não faria os ingleses mudarem de idéia?!Até mais!

Jéssica
Jéssica

EEii!!Acompanho o Blog ja faz um tempinho e acho ele muito bom!vcs estão de parabens!!achei esse post sobre as Masvinas bem interessante!!só acrescento que depois que os britânicos explorarem todo o petroleo das Malvinas, eles chegarão, com todo aquele estilo inglês, aos argentinos e reconhecerão que o territorio deve ser entregue a Atgentina por motivos obvios e tal!!Bem a cara das grandes potencias nao??