Quem vence por último, vence melhor

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Chegou o próximo capítulo, Raphael. Uma história chega ao final sem ter propriamente um fim. Se no Afeganistão morreu o 300º soldado britânico, no Brasil está fenecendo os esforços de mediação do caso iraniano. Infelizmente, perdeu-se uma boa chance para uma guinada positiva na política mundial, qual seja a conformação de uma saída negociada para a questão nuclear do Irã, marcada por uma postura atuante da diplomacia brasileira.

O presidente Lula já entregou os pontos, ao dizer que o Brasil fez o que pode. Por certo, fez o que deixaram fazer, não no sentido de cumprir um pseudo-receituário norte-americano (lembremos da suposta carta de recomendação de Obama), mas por não poder ir além do condomínio inescrupuloso das grandes potências. Muitas elogiaram a atuação brasileira, no entanto, no máximo, conceberam-na como um show de abertura ao espetáculo das sanções. Agora quem samba é o Conselho de Segurança, nos festejos de uma prática recorrente e que nunca deu certo, ainda assim dita milagrosa. O Irã já vive sobre sanções! Diante de tal atitude, só faltava o clube mandachuva pensar que o governo iraniano receberia cordialmente os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), quando não lhe ofereceram a chance de pôr em prática a Declaração de Teerã. (aqui, aqui e aqui)

Aliás, o Conselho de Segurança foi alvo de críticas do chanceler Celso Amorim, que afirmou que o órgão não reflete mais a realidade política, e sim “a realidade de 65 anos atrás”. Isto não é novidade. Assim como tal declaração também não escamoteia o sacro desejo brasileiro de se tornar membro-permanente do órgão. Mas evitemos os reducionismos que contaminam a maioria das análises atuais sobre o que o Brasil foi fazer no Irã. Ampliemos os horizontes de nosso senso crítico. É fato notório: do final dos anos 1990 para frente, a política externa brasileira alcançou praticamente todo o globo e tem se sentado nas principais mesas de negociação (ONU, OMC, G-8, G-20, etc.).

Mas por que o Irã, quando todos dele se distanciavam? A princípio, ninguém é ingênuo ao ponto de não perceber os interesses comerciais, haja vista que o Brasil mandou uma coalizão de empresários ao país pouco antes do encontro de Lula e Ahmadinejad. Em segundo lugar, a América Latina é a única região livre de armas nucleares, garantia acordada de maneira institucional, por acordos regionais e bilaterais, com destaque para os esforços de Brasil e Argentina. Em matéria nuclear, temos o que ensinar para o mundo! Por fim, é preciso que alguma voz se levante para demonstrar que “as coisas não andam bem”. Em 1976, na Assembléia Geral das Nações Unidas, o chanceler brasileiro Azeredo da Silveira propôs uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), sobrelevando as necessidades do desenvolvimento econômico e social ante as preocupações de segurança. Agora, Lula e Amorim sinalizam a necessidade de uma nova diplomacia, tarefa malograda de Obama. O presidente, que outrora ensejou uma aproximação com Teerã, colhe as quinquilharias da vitória das sanções, focando em bancos e gasolina.

Ressalta-se que mesmo o ex-presidente Cardoso destacou a credibilidade e o respeito internacional do Brasil em suas relações exteriores. Ainda que para muitos o país saia derrotado do caso iraniano, é uma derrota vitoriosa. Quando as grandes potências se despojarem de sua soberba, perceberão que a solução para o Irã seria uma saída negociada e pacífica, algo tentado pelo Brasil em conjunto com a Turquia. Sem os suspiros ufanistas de Policárpio Quaresma, o herói de Lima Barreto, o Brasil está bem cotado no mundo, deixando a condição de periferia no passado e a condição de potência no futuro.

(Vejam também a justificativa do Brasil por ter votado contra as sanções no Conselho de Segurança.)


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