Quem tem medo?

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Quem tem medo da Coreia do Norte? Há alguns dias tivemos uma postagem inspirada que comenta bem sobre o aspecto histórico e do papel desse país pitoresco no mundo. Pois bem, o que vemos hoje é, possivelmente, a maior possibilidade de o conflito na península ser retomado desde o armistício dos anos 50, então vamos falar de aspectos mais pontuais – e de por que mais uma vez as ameaças da Coreia do Norte são fogo de palha. 

O estopim disso tudo foram o teste nuclear e o lançamento de foguete no começo do ano. Parte daquela estratégia usual deles de mostrar presença pra seu vizinho do sul. As tecnologias são complementares quando pensamos num ICBM, o mundo inteiro ficou horrorizado com a possibilidade, os EUA irritados com mais uma violação às proibições de testes e com isso até a China apoiou mais uma rodada de sanções. O drama foi que dessa vez esse aperto em Pyongyang coincidiu com as tradicionais manobras de treinamento militar dos EUA & amigos, fazendo com que viessem mostrar os dentes mais perto ainda. Ameaça de fulminar os EUA, arrasar a Coreia do Sul e o Japão, o mesmo papo de sempre. Possível? Sim. Provável? Não.

A Coreia do Norte tem um dos maiores exércitos regulares do mundo. Se entrar em guerra com qualquer país pode causar estrago, especialmente na Coreia do Sul (quem mais tem a perder, de modo realista, num caso de conflito). O problema e que não vão se sustentar por muito tempo caso a coisa esquente pra valer – o equipamento do país é muito datado (sério, estão usando equipamento da época… da Guerra da Coreia!), e suprimentos são algo complicado por lá sem apoio chinês. É difícil estimar a reação dos combatentes, mas fora uma ala ultranacionalista inflamada pela cúpula do Partido, que deve querer lutar até o amargo fim, a maioria dos soldados comuns não é dada a esse tipo de heroísmo. Se os EUA realmente tomarem parte na briga, a derrota VAI ser uma questão tempo.

“Mas Álvaro, o Iraque era muito mais fraco, e olha o que aconteceu!”. Bom, no Iraque estávamos falando de uma guerra bastante irregular, com envolvimento de civis e regras de engajamento nebulosas. O governo norte-coreano é muito centralizado, e em caso de derrota é muito possível que o resto da estrutura desmorone sem a pressão do Estado.

“Mas e a bomba atômica?!”. É simples – não vai rolar. Só foram usadas bombas dessas pra valer no fim da Segunda Guerra, quando ninguém ia peitar os EUA por isso. Questões morais à parte, hoje a situação é diferente – quem usar esse tipo de arma vai atrair quase que toda a opinião pública mundial contra si. Estados não são como grupos terroristas, que não têm nada a perder. Se atacar a Coreia, até a China vai intervir na situação. E se ousar riscar a pintura de um navio norte-americano, ai de Pyongyang. A reação a um evento dessa magnitude não pode resultar em outra coisa que não seja a destruição (moral, política e prática) do Estado norte-coreano. Além disso, e o mais importante de tudo, apesar dos testes, a capacidade de alcance nuclear real da Coreia do Norte ainda é desconhecida, e muito provavelmente exagerada nas declarações. Explodir uma bomba embaixo da terra é uma coisa, colocar num míssil e atingir o outro lado do oceano, outra bem diferente. 

E não precisamos ir tão longe! Existe uma análise interessante que mostra que as ações da Coreia do Norte visam a causar o terror na do Sul. Acho que o foco aqui deve ser o oposto. Kim Jong Un precisa marcar terreno no meio dos burocratas nacionalistas, e que maneira melhor de fazer isso que ameaçar a maior potência militar do mundo? Kimzinho é um cidadão do mundo (na medida do possível). Ele certamente conhece melhor a situação de fora que seu pai, e a posição da Coreia nele. O país só tem a perder em caso de conflito (que diabos, até mesmo a Coreia do Sul é um parceiro vital pra economia do país!), e apenas a ganhar caso mantenha essa situação de dissuasão mútua na região, tentando manter esse blefe atômico com as potências. Jogando as cartas na mesa, perde tudo. 

Ok. Racionalmente, não deveria acontecer um ataque. Porém… e SE acontecer o pior? Não dá pra saber o que se passa na cabeça dos líderes e generais norte-coreanos. Lutar até a morte? Sim, mas podemos até começar a especular num terreno pantanoso de mirabolantes conspirações, em que Kim, um homem que conhece os “prazeres” do mundo exterior, incita o país à guerra para que os radicais nacionalistas sejam consumidos pelo fogo, o Estado desmorone e finalmente possa entrar no século XXI com a ocupação/intervenção/ajuda de outros países, fazendo à força uma reforma que seria impossível de dentro… Um vilão para o mundo, mas herói improvável em longo prazo. Já pensou? Não duvide de nada quando falamos desse país.


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