Quem tem medo de escuro?

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Você tem medo de escuro? Quem disser que não escutou essa frase diversas vezes desde a infância, com certeza estará mentindo. O medo faz parte daquelas incertezas que crescem dentro de nós e que se alimentam de inseguranças e, possivelmente, de falta de entendimento e/ou capacidade para lidar com determinados problemas. E quando se trata do escuro então, do não enxergar, do deixar a mente criar e destruir pensamentos, certezas e fantasias, que as crianças, ficam ainda mais amedrontadas.

E a América do Sul? Tem medo do escuro? Se não quer ter é melhor começar a trabalhar para isso, segundo o responsável pela divisão de infra-estrutura e recursos naturais da CEPAL, Beno Ruchansky. A estimativa feita é que, caso o continente não dobre sua produção energética nas próximas duas décadas, os sul-americanos vão enfrentar um grande apagão conjunto.

Claro que de previsões nefastas já estamos todos fartos. Ultimamente elas vão desde o fim do mundo no ano que vem até o aumento do nível do mar em proporções capazes de derreter as calotas polares e reduzir drasticamente territórios ao redor do globo. Mas a questão é que, por trás dessa estimativa da CEPAL está uma mensagem interessante sobre o crescimento econômico desses países. Essa mensagem reside no quão desordenados e não planejados têm sido as expansões das economias sul-americanas e das possíveis consquências que terão caso continuem a marginalizar questões essenciais de infra-estrutura e energia.

Todavia não se pode dizer que não há nenhuma investida política de cooperação nesse sentido. O maior exemplo é a Iniciativa para Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). Essa arquitetura regional criada em 2000, durante a 1ª Reunião de Presidentes da América do Sul, representa um avanço, porém não a resolução das dificuldades de infra-estrutura. Mas, da mesma forma que a instalação do Mercosul não representou, necessariamente, o efetivo livre-comércio entre os países sul-americanos, mas sim possibilitou um novo ambiente de diálogo comercial, a IIRSA ainda tem que trabalhar muito para rebater cenários nefastos. Mas o diálogo já começou. O que é sempre positivo.

Em outras palavras, a despeito dessa cooperação, o caminho a ser trilhado ainda é longo. Principalmente se levarmos em conta a necessidade de melhor planejamento de infra-estrutura do ponto de vista interno e do quão em segundo plano a questão da energia tem ficado na agenda política desses países. O Brasil passou por uma crise complicada em 2000, a Venezuela passa por outra desde 2010 e o Peru já anunciou que terá que comprar energia elétrica de seu vizinho para suprir sua demanda interna. A coisa não ta fácil para os sul-americanos.

Mas é aí que mora outro problema. Vamos aumentar nossa produção de energia? Certo, mas que fonte vamos usar? A polêmica hidroelétrica, a complicada nuclear ou fontes alternativas? Alterar ecossistemas, ir à contramão de ambientalistas ou gastar quantias que não são certeza de sucesso? Se os países sul-americanos não quiserem alimentar as incertezas e inseguranças energéticas, se quiserem não ter medo de escuro, há um longuíssimo caminho a ser trilhado. E, para começar, é preciso colocar, ainda mais, o tema na agenda.

[Clique aqui para um mapa da integração física da América do Sul]


Categorias: Américas, Polêmica


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