Quem quer dólar?

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Nunca antes na História desse país houve uma entrada tão violenta de dólares na economia. Muito tem se falado na imprensa sobre a guerra cambial, expressão cunhada pelo mininistro da Fazenda Guido Mantega e que se espalhou mundo afora. Reunião do G-20 para debater a valorização generalizada de todas as moedas frente ao dólar: tudo conversado, nada resolvido, num problema que promete causar estragos em 2011.

Depois da crise de 2008, visando impulsionar o consumo e a produção, os países baixaram suas taxas de juros, gerando enorme liquidez. Em outras palavras, os governos pagam menos se você quiser deixar o seu dinheiro na poupança. Como não compensa deixar o dinheiro parado, você 1) consome, compra aquela TV que sempre quis mas nunca teve como adquirir ou 2) investe em aplicações de maior risco, e que dão retornos maiores. No Brasil, a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) ajudou a aquecer o mercado, e todo mundo comprou carro, geladeira, fogão, etc.

Mundialmente, apesar do auge da crise já ter passado, os países desenvolvidos não tem perspectivas de expansão dos seus mercados internos. A solução é ganhar espaço fora! Nesse sentido, uma das medidas econômicas mais simples para aumentar exportações é manter essa liquidez e desvalorizar o dólar perante as outras moedas. Para isso, os EUA estão imprimindo papel-moeda numa velocidade frenética e mantendo os juros baixos. Com muita moeda americana circulando, o preço da mesma cai, tornando as moedas nacionais “mais caras”. Com isso, fica mais barato comprar mercadorias importadas do que as nacionais, descompensando a balança comercial. O Brasil, então, é muito visado como “porto” para o atracamento desses investimentos, já que oferece uma das maiores taxas de juros.

Os governos, de olho nessa tendência, lançam mão de medidas para dificultar a entrada de capital estrangeiro – aumentam impostos, impõem cotas, erguem barreiras aqui e acolá. A China, mercado mais visado pelos países desenvolvidos, possui reservas suficientes para manter o yuan desvalorizado com relação ao dólar. Ou seja, nessa guerra da batata-quente, sobra para os outros subdesenvolvidos – nós.

Isso é muito visível quando olhamos para o índice Big-Mac. Criado pela ‘The Economist’, o índice afere o preço dos big-macs no mundo, partindo do princípio que o sanduíche é o mesmo em todo o lugar e, portanto, deveria custar a mesma coisa. Com esse cálculo, medem-se as distorções que uma moeda tem em relação à outra. O Brasil tem o segundo Big-Mac mais caro do mundo – US$ 5,16, só perdendo para a Suíça, com US$6,78 (nos países do Euro, o valor é US$ 4,79; nos EUA, US$ 3,71; e na China, US$ 2,18). Em se tratando de Brasil, outro indicador preocupante é o saldo de transações correntes (valor que leva em conta todas as operações do país com o exterior, como exportações e importações, juros pagos, transportes, seguros, lucros e dividendos recebidos, serviços diversos, e transferências unilaterais) e os sucessivos recordes deficitários – se quiser saber mais sobre isso clique aqui e aqui.

Em Seul, os ministros do G-20 acordaram contra a desvalorização de moedas, e se comprometeram a regular desvalorizações cambiais. Nem Meirelles nem Mantega compareceram ao encontro, que lança as bases da cúpula, a ocorrer em novembro. Apesar das “boas intenções” declaradas no G-20, o dólar continua a operar em baixa no mundo.

O fato é que essa situação não deve se alterar a curto prazo, possivelmente nem a médio. A guerra cambial pode se desdobrar em guerra comercial, com os países tomando medidas protecionistas para defender suas economias – e isso geraria uma recessão grave. Como toda moeda tem dois lados, talvez seja uma boa estratégia aproveitar o momento e as vantagens decorrentes de um real mais valorizado. Algumas possibilidades estão na melhoria de portos, aeroportos e indústrias, importação de maquinário, bastando-se algum freio para a importação de bens de consumo não-duráveis. Uma reforma tributária também cairia muitíssimo bem para aumentar a competitividade da indústria brasileira no mercado interno.

E seja quem for o próximo presidente, fato é que algumas escolhas difíceis deverão ser tomadas em 2011, quando esse problema deve atingir seu ápice e trazer conseqüências bastante danosas ao Brasil.


Categorias: Brasil, Economia, Estados Unidos


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