Quem quer democracia?

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Em 2001, o renomado cientista político Francis Fukuyama insistia em sua teoria sobre o “fim da história”. Em poucas palavras, defendia que a longa batalha entre o liberalismo político-econômico e o socialismo/comunismo havia, por fim, chegado ao fim com um vencedor. A democracia liberal se sobressaiu, trazendo consigo novas dinâmicas fruto da globalização cada vez mais intensa. O terrorismo e o acirramento das tensões entre os modelos de civilização seriam uma parte do processo irremediável da vitória do liberalismo.

A perpetuação no poder, o autoritarismo, a sociedade sob o julgo dos militares e subserviência das grandes potências formam um quadro conhecido para os latino-americanos. Enquanto americanos se dividiam entre democratas e republicanos traçando planos para extinguir o comunismo, nossa região se viu jogada nos braços do “melhor aluno”. Esses “melhores alunos”, espalhados por diversos países latino-americanos, governaram ancorados no medo, repressão e o apoio de forças externas (em parte ocultas). Muito ligado a este histórico está nossa situação atual, na qual resplandece novas formas de populismos e governantes fortes sob um regime democrático.

Em certo sentido, é possível observar um paralelo entre os acontecimentos no Oriente Médio e a herança histórica latino-americana. As grandes potências, em ambos os casos, fecharam os olhos e seguiram cooperando com regimes ditatoriais. Mais que isso, suas políticas para o Oriente Médio eram ancoradas em países-chave, independentemente da dinâmica política e social interna que apresentavam. Os Estados Unidos talvez sejam o exemplo mais representativo disso. Antes da renúncia de Mubarak se encontrava em uma situação constrangedora, entre seus ideários democráticos históricos e um aliado de décadas, no qual se pautaram muitas políticas para toda a região.

Obama esteve em Cairo em 2009 para discursar sobre “um novo começo”. Bush (filho) deixou uma profunda cisão entre o Ocidente e o Oriente, a partir da qual se fortaleceram fundamentalismos e conseqüentemente foram geradas ameaças a coexistência pacífica entre ambas. O que os norte-americanos parecem não entender é que a origem da cisão é mais antiga e profunda do que se admite formalmente. As alianças e a manutenção de governos intermináveis no Oriente Médio como em outras regiões, foi um elemento essencial para o acirramento entre nossas civilizações. A escolha que foi feita, e nunca desfeita por Obama e outras potências, deveria ter sido considerada para este “novo começo”. O fundamentalismo foi também fruto, entre outros fatores, do apoio a ditadores vistos como “melhores alunos” da região, uma vez que não conseguiram ancorar governos autoritários em outros fatores que não fossem a tradição e a religião.

Todo o ocorrido na Tunísia e no Egito segue reverberando pela região. Tudo indica que deixará profundas marcas, ainda que não estejam claras até o momento. Todos os que se orgulhavam em tirar fotos e participar de reuniões com os países árabes devem estar inquietos em seus assentos, afinal governantes ilegítimos e regimes autoritários que eles ajudaram a manter começam a desmoronar. Alguns poderão afirmar que chegou o “fim da história, outros que existe um “novo começo”. Contudo, a meu ver soa hipócrita que as grandes nações agora se coloquem ao lado dos anseios populares. Resta saber se o fundamentalismo perderá espaço e como emergirão os novos líderes regionais. Poderiam seguir os latino-americanos, apelando a modelos populistas (ou populares)? A classe dos “melhores alunos” das grandes potências está cada vez mais vazia. O mais surpreendente, no entanto, é que tudo indica que quanto mais vazia se apresente, mais seguros estarão seus professores e maestros. Restaram aqueles alunos do fundo da sala, que não respeitam ninguém e seguem sem aceitar o sistema.

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