Quem muito abaixa…

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Após meses de negociação, Brasil e Paraguai deverão finalmente chegar a um acordo sobre a usina hidrelétrica de Itaipu. E vamos pagar mais!

Por englobar uma região de fronteira entre Brasil e Paraguai ao longo do rio Paraná, ficou acertado em 1973 que cada país teria direito a metade da energia produzida em Itaipú. Entretanto, como o Paraguai não dispunha do capital inicial para a obra (US$ 50 milhões para cada um), o Brasil arcou com todos os custos a título de financiamento. No tratado, acordou-se que, até 2023, o excedente da energia produzida do lado paraguaio (cerca de 45%) seria vendido à Eletrobrás por US$ 32 (sendo que do lado brasileiro, ela custa US$18).

Eis um brilhante instrumento de barganha dos paraguaios! A usina fornece cerca de 20 a 25% do que é consumido pelo Brasil. Após diversas propostas do governo paraguaio para que o excedente energético fosse vendido a outros países, o governo brasileiro aceitou que parte da produção fosse vendida em mercado livre no Brasil. Hoje, além da tarifa (US$ 43,8), o Brasil paga um bônus (US$ 3,17) pela concessão de energia. Esse bônus será triplicado, e o valor pago ao Paraguai vai passar de US$ 120 milhões a US$ 360 milhões por ano.

Essa declaração conjunta entre os presidentes ainda precisa passar por outras instâncias, grupos de trabalho, congresso, e as negociações ainda não cessaram. Mas convenhamos, totalmente desnecessária a revisão do acordo de Itaipú, que só expira em 2023. E o Brasil vai cedendo aqui, cedendo ali… Os negociadores paraguaios já saíram cantando que apenas 20% das propostas foram atendidas, e que todo o avanço foi um bom ‘início’. Virou até questão de soberania! ‘Finalmente el Paraguay recuperará plenamente su soberanía sobre Itaipú’, disse Fernando Lugo. Tem até um arquivo chamado La absurda historia de la deuda espuria de Itaipú na imprensa paraguaia.

Para eles, o Brasil é um déspota que quer se dar bem em cima dos ‘hermanitos’. Ora, onde já se viu? A gente tem uma usina que praticamente subsidia o desenvolvimento da economia brasileira! E isso tudo a preço de banana! É de fato uma questão de honra. No site http://www.abc.com.py/, procurando-se por Itaipú, tem-se mais de 30 ocorrências do dia 25 para cá.

Lugo se elegeu levantando a bandeira de uma renegociação ‘mais justa’ acerca de Itaipu. O Marco Aurélio Garcia, assessor da presidência para assuntos internacionais, declarou “que não basta a prosperidade do Brasil em um quadro de crise econômica e social em países vizinhos”. Pode-se pensar no real significado dessa concessão para o Brasil. Imaginemos, afinal, como um problema com o vizinho pode nos comprometer futuramente, ao costurar um acordo qualquer, em diferentes foros multilaterais. Mas ainda assim, passa dos limites esse excesso de sorrisinhos do governo brasileiro para com nossos colegas latinos. Para o governo brasileiro, Lugo precisa “entregar o que prometeu”. (coitadinho…) Se dando um dedo já querem o braço, dando um braço…

Para ler mais sobre isso, clique aqui, aqui e aqui.



Categorias: Américas


8 comments
Luciano
Luciano

Compreendido, Alcir.

Alcir Candido
Alcir Candido

Mais ou menos, Luciano. O Paraguai é parte dessa retórica sul-sul, mas é também um parceiro do Mercosul e um vizinho mais ou menos hostil e insatisfeito aqui na américa do sul. E esse vizinho ainda tem afinidades em termos de discurso com a Venezuela, Argentina, Equador, Bolívia e outros com discurso mais de esquerda na América como um todo. O Brasil está para eles mais ou menos como os EUA está para nós: uma 'potência' imperialista que só quer aumentar sua influência e se dar bem às costas deles.A retórica sul-sul tem a ver mesmo com a própria orientação ideológica do governo (também um pouco de esquerda) e o Paraguai acaba entrando nesse rolo todo.

Luciano
Luciano

Bom... parece que o "interesse no PY" que eu estava a dizer foi corrigido e tornou-se "interesse no sul".Poderiamos encarar assim?

Alcir Candido
Alcir Candido

Olha, Luciano, não acho que o Brasil tenha TANTOS interesses assim no Paraguai... Vamos falar a verdade, o Paraguai não tem quase nenhum tipo de recurso estratégico que convenha ao Brasil 'surrupiar'.Essas atitudes do governo se explicam, principalmente, pelas mudanças de orientação do governo lula em termos de política externa. Houve uma mudança do eixo norte para uma política mais sul-sul. Então a relação do Brasil com esses países ficou mais frouxa mesmo, ao passo que ficou mais 'hostil' também frente aos países do norte. O Brasil busca também diminuir a imagem que tem de imperialista e conseguir apoios para outras coisas, como a tal miragem da cadeira permanente no conselho de segurança da ONU.Mas tem questões mais pragmáticas também. Por exemplo: o Brasil só pode fechar acordos comerciais no âmbito do Mercosul. O Paraguai é do Mercosul e, de repente, pode bloquear um acordo que queremos por pura raiva.E aí se pergunta. Compensa pro Brasil arrumar briga com nanico por causa de uns trocados? 300 milhões pro brasil não é nada... E se depois vem Equador, Argentina, Uruguai, Venezuela e o escambal atrás?Eu pessoalmente acho que compensa, sim! Mas é uma questão a se pensar...

Luciano
Luciano

"Como muito bem aponta Rubens Barbosa, o governo brasileiro se encolhe perante os vizinhos, quase pedindo desculpas por defender o interesse nacional" ahahahahaEsse destaque realmente parece a realidade brasileira, mas é justamente por isso que fica difícil acreditar que não haja algum interesse a mais do Brasil em relação ao PY.Afinal, nessa perspectiva, será que eles se acham no direito de sobrepor o interesse coletivo brasileiro ainda mais?!

Andrea Citron
Andrea Citron

Luciano e Carla,Realmente, no meu entender, tudo gira em torno do papel de líder que o Brasil desempenha (ou tenta) na região. Nosso país é aclamado como potência emergente, pleiteia uma cadeira permanente no Conselho de Segurança, quer substituir o dólar como moeda de troca... Quanta ambição! Só que esquecem que além dos benefícios, da glória, da posição privilegiada, ser líder requer que se arque com responsabilidades e firmeza perante situações adversas, independente de quem esteja a frente do barco.Veja bem, no meio de uma avalanche de escândalos pessoais envolvendo o presidente paraguaio, ele vem ao Brasil com diversas demandas, querendo rever um acordo de 1973, por considerar, entre outras coisas, que o mesmo foi firmado em tempos de ditadura. Ameaçou ir a Corte de Haia. E o que o Brasil fez? Cedeu às negociações. O problema é que já havíamos cedido duas vezes em 2007. Abateu-se US$ 1 bilhão da dívida paraguaia, entre outros reajustes. O Brasil, no começo dessa conversa, apresentou propostas de investimento em programas sociais e infraestrutura no Paraguai. O negociador paraguaio simplesmente riu da proposta, classificando-a como uma piada. Como muito bem aponta Rubens Barbosa, o governo brasileiro se encolhe perante os vizinhos, quase pedindo desculpas por defender o interesse nacional. Pois que fôssemos a Haia! O acordo nos respalda. Não tentemos mais agradar a todos, como reiteradamente a diplomacia vem trabalhando. Doha está aí como exemplo do quão perigosa essa política pode ser.

Carla Diaz
Carla Diaz

Andrea,O excesso de concessões com os ¨hermanos¨ passou dos limites. Espero realmente que essa proposta absurda e desvantagosa somente para o Brasil não seja aprovadas nas demais instancias do poder legislativo.Abracos

Luciano
Luciano

Pelo que me parece o Brasil persiste na ideia de ser um exemplo de cooperação e quer passar longe da imagem de um "despota".Não estou muito por dentro das negociações, mas, pelo o que vejo, o interesse brasileiro não deve ser unicamente o cumprimento do prometido pelos hermanos.O que pode ser levantado a esse respeito?