Quem manda no Oriente Médio?

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A festa junina já foi faz tempo, mas continuam a estourar rojões no Oriente Médio. No Irã, um depósito numa base militar explodiu e matou cerca de 30 pessoas – segundo a imprensa local, um depósito de mísseis, e descartando a hipótese de sabotagem (apesar da expectativa de ação militar iminente contra suas instalações nucleares e do histórico de eliminação de cientistas iranianos por serviços de inteligência estrangeiros). Já na Síria, continua a repressão, e se depender da Rússia não termina tão cedo: enquanto não houver sanções formais ao regime de Assad, os contratos de fornecimento de armas russas continuam. Nada mais pragmático, mesmo agora em que o país foi suspenso da Liga Árabe e as sanções parecem vir a galope.

Os dois casos estão relacionados por conta de suas implicações regionais. A Síria ser posta para escanteio é um sinal de enfraquecimento da Liga Árabe, a responsável pela negociação com Assad para cessar a repressão, e até então a principal força de coordenação política regional para os países islâmicos. Com esse insucesso, é aparente sua decadência (talvez iniciada quando Kadafi abandonou a organização procurando se mostrar muito mais africano que árabe), e a ascensão de outro grupo, que hoje está cada vez mais influente e, principalmente, com dinheiro no bolso, o Grupo de Cooperação do Golfo (ou GCC, da sigla em inglês).

Essa foi uma organização criada na época da Guerra Irã-Iraque, para resguardar as frágeis monarquias do Golfo Pérsico, que dependiam (e ainda dependem) muito dos EUA para sua segurança. Hoje, com as oscilações no preço do petróleo, a saída de cena do Iraque como potência regional e a riqueza refletida em exuberância dos pequenos emirados (Doha, Qatar, etc. – o chamado “Gulf Moment“), esse grupo, que antes não tinha quase nenhum efeito prático, está cada vez mais poderoso política e até mesmo militarmente (foram tropas do grupo que auxiliaram na repressão dos protestos no Bahrein, fato inédito para a organização). E qual seria a principal razão para o fortalecimento do GCC? Quem responder Irã ganha um doce.

O temor do programa nuclear e, acima de tudo, de uma turba xiita, que estenderia seus tentáculos sobre os países da região e ameaçariam as monarquias (adivinhem só, sunitas) faz com que sejam esses países os principais responsáveis pela campanha de “demonização” do Irã. Lembram do “Crescente Xiita“?Há até quem diga que são os países liderados pela Arábia Saudita os responsáveis por incitar EUA e Israel a fazerem seu “serviço sujo”, e os principais interessados na remoção de cena do Irã. Por mais que o Irã brade a destruição de Israel, realmente não faz sentido que haja uma dinâmica de conflito imediata entre eles – não com a questão palestina, muito mais urgente e próxima para Israel, ainda sem ser resolvida. E os EUA? São eles que querem conter o Irã? Ou estão apenas atendendo a pedidos sutis dos seus aliados do Golfo?

Ainda é cedo para dizer com certeza “quem manda” no Oriente Médio. Mesmo por que, algo assim nunca existiu que não fosse um império da Antiguidade. Temos que pensar, por exemplo, no atual papel da Turquia, que cada vez mais parece se alijar da Europa em crise e se aproximar dos países árabes para desempenhar um papel de liderança. Também seria muito simplista falar em “manipulação” de países. Mas, nesse ano de efervescência, o crescimento de uma organização conservadora (que já cogita chamar o Egito para sua órbita para evitar o fervor revolucionário pós-Mubarak) e sunita (que adoraria ver o Irã varrido do mapa) faz com que se perceba como há uma diversidade de interesses envolvidos dentro da própria região, e como suas dinâmicas podem ser complexas, surpreendentes, e acima de tudo, desconhecidas de grande parte da mídia Ocidental…


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