Quelqu’un m’a dit

Por

E disseram mesmo! Este é nome de uma das canções mais famosas de Carla Bruni, que também é a atual primeira-dama francesa. Numa breve paráfrase para sintetizar o assunto: alguém lhe disse que a vida não vale grande coisa, não porque passa em instantes como murcham as rosas, mas por ser prostituta. Prostituta? Ao menos, esta foi a acusação do jornal iraniano Kayhan em resposta ao pedido de Bruni pelo fim da punião por apedrejamento no Irã.

Não bastassem alguns jogadores da seleção francesa de futebol criarem um mal-estar entre si por causa de uma prostituta, agora a palavra pulula os mais altos círculos políticos do país. Tudo bem que o Irã, em matéria de polemizar, é campeão do mundo, mas foi um golpe-baixo, uma ofensa de caráter pessoal. O jornal não apenas chamou Carla Bruni de prostituta, como julgou que ela merece um destino similar ao de Sakineh Mohammadi Ashtiani, a iraniana condenada à morte (entenda o caso aqui). Na opinião do jornal, Bruni teria provocado a separação do presidente Sarkozy com a sua segunda esposa, indicando um comportamento ultrajante e imoral para dizer qualquer coisa ao governo iraniano.

A resposta do governo francês foi afirmar que os insultos são inaceitáveis. De fato, são inaceitáveis, todavia um olhar ampliado relevaria uma problemática recorrente na França: a imigração, principalmente de muçulmanos oriundos do Magreb. Como eles são recepcionados? Não é necessário nem ir tão longe: no mês passado, cenas da violência policial contra os imigrantes foram veiculadas pela internet. É difícil dizer se o Irã levou isso no cálculo racional para a feitura de tais insultos, mas parece ter sido um apelo chamativo em prol das tradições muçulmanas, desprezadas pelos franceses.

Por outro lado, este imbróglio reacende novamente a questão sobre a relativização dos direitos humano. O Oriente os considera como uma invenção ocidental e qualquer iniciativa semelhante à de Bruni é percebida como uma afronta aos seus valores históricos e culturais. Já no Ocidente, muitos se indignam e também se sensibilizam com o infortúnio de Sakineh, a ponto de desejarem a abolição dessa punição brutal. Diante desse quadro, a pergunta inevitável: o que fazer? Agir para coibir ou deixar tudo como está? Proteger a vida e a dignidade humana ou preservar o princípio da auto-determinação dos povos? Esses são problemas com que freqüentemente se depara a comunidade mundial, incluindo também atores não-estatais.

Está dito! Investigamos então as origens dos dizeres com a finalidade de pensar para onde eles podem conduzir: dos insultos a Bruni à problemática dos direitos humanos. Em que pese esse último aspecto, alguém precisa dizer e dizer muita coisa para se chegar a alguma solução…


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico


1 comments
Mário Machado
Mário Machado

O pior é o Brasil ser a revelia dos brasileiros diga-se de passagem um grande aliado desse regime. Prefereria ser aliado das forças democráticas que são amplas e forte no Irã.Mas, eu não mando em nada, só me resta escrever e protestar e ser chamado "vira-lata", "neo-liberal" e outras ofensas que o executivo nacional e o Amorim reservam a quem discorda deles.