Que se lixe a troika

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É mais um dos episódios desencadeados pelos fortes ajustes econômicos de um país endividado. Nesse caso, não há a necessidade de tradução. Os portugueses organizam manifestações com o objetivo de protestar contra o orçamento do país para 2014, no qual estão previstos cortes agressivos nos salários e nas pensões.  

Há cerca de duas semanas, o ex-presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet, comentava a crise econômica na zona do euro. Para ele, muitos dos países do bloco atravessaram anos gastando mais do que arrecadavam, de forma a resultar em déficits públicossignificativos. Todo déficit público exige financiamento de alguém. Quando veio a crise econômica, os financiadores enxergaram riscos na continuação do financiamento dos déficits, em especial de alguns países, e decidiram impor condições estritas. 

Entre os afetados, estão Grécia, Espanha e Portugal. Os portugueses, assim, encontraram-se endividados e forçados a implementar um ajuste impopular. Na realidade, gastar mais do que se ganha provoca consequências tanto econômicas quanto sociais. No âmbito social, promove serviços e condições de vida superiores às que a economia do país permitiria. No âmbito econômico, gera desequilíbrios de duradouras consequências.  

A analogia com o endividamento privado, por exemplo de uma família, pode ajudar-nos a entender. Um agente privado endividado vai ter que cortar despesas, caso deseje retornar ao equilíbrio. Contudo, na mesma analogia surge outro questionamento. Para pagar uma dívida, deve-se trabalhar e gerar receita, para a família na forma de salário. Sem trabalho, por mais profundo que sejam os cortes, pouco se avança.  

Retomando a comparação anterior, a temida austeridade é isso. Os governos diminuem os serviços oferecidos aos cidadãos, cortam gastos com encargos e salários, além de aumentarem os impostos. Assim, gradualmente retomam o equilíbrio ao diminuir o déficit público. Por outro lado, nestes períodos há uma retração dos agentes privados devido à incerteza. Por isto, o governo tem papel importante para não deixar a economia afundar mais do que deveria. 

Os países endividados, porém, não escolhem o que fazer. A troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI) traça metas ambiciosas para cortes das despesas. A margem para o governo agir e impedir a economia de colapsar fica restrita. Portugal, como os demais afetados, deveria pensar em reformas para incrementar sua competitividade e modernizar sua economia, fortalecendo suas bases para o futuro. Se no curto prazo os portugueses veem a economia entrar numa profunda recessão, poderia haver ao menos um melhor planejamento a médio-longo prazo.  

Os credores, no caso português a troika, querem mais é receber o que lhe devem. Enquanto isto, a crença nas instituições europeia diminui no mesmo sentido dos gastos sociais. No âmbito político, este fenômeno poderia ensejar um fortalecimento da extrema direita. Em Portugal, tendo em vista o não distante regime Salazar, esta tendência parece não se consolidar por enquanto. Consolida-se o “que se lixe a troika” e o repúdio à outrora promotora de boas novas, a União Europeia.


Categorias: Economia, Europa


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