Há um ano...

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Hoje vamos fazer uma edição especial do nosso já muito conhecido exercício de memórias. Dessa vez, vamos olhar para um evento que marcou tanto o ano passado que a mídia e o governo do Chile à época vieram a chamar de um divisor de águas na história chilena: o acidente dos 33 mineiros chilenos. Não se deu exatamente um ano depois do resgate, mas no ano passado a essa altura, a mídia nos bombardeava com notícias sobre o paradeiro dos mineiros e os planos do governo para retirá-los da mina (para o post escrito sobre o tema, clique aqui).

Já discutimos por aqui se muitos eventos que a mídia ou governos veiculam como marcos ou rupturas representam de fato mudanças (clique aqui para o texto). Agora, o caso dos 33 mineiros foi de fato um marco na história chilena?

Bom, se estamos falando de um marco no qual pessoas seriam para sempre lembradas como heróis e a partir do qua a forma da população ver o governo seria diferente, a resposta pende bastante para o não. Aquilo que serviu como catalisador da unidade nacional e catapultou a popularidade do presidente Sebastián Piñera, hoje já é pouco lembrado no país.

Os mineiros passaram, para muitos, de heróis nacionais para aproveitadores nacionais. Os altos cachês por entrevistas e os processos realizados contra o Estado chileno por negligência têm provocado a revolta contra aqueles que antes eram vistos como os arautos do orgulho da nação chilena. Há também o lado dos próprios “33 do Atacama”. Insatisfeitos, esquecidos pelo governo, em estado pós-traumático e sem prospecção de melhoria de vida, eles são mais lembrados fora do país do que dentro dele.

O fato é que nem mesmo Piñera conseguiu aproveitar muito o sucesso da operação de resgate. Hoje, graças aos protestos por educação universitária gratuita, o presidente tem enfrentado a maior crise de seu governo e sua popularidade voltou a cair. Observa-se que eventos capazes de mudar o curso de determinada história são difíceis de ocorrer. Mesmo aqueles que parecem trazer inflexões grandes para um país, com a mesma velocidade com que rapidamente dominam os meios de comunicações, caem no esquecimento.

O Chile continua dependendo grandemente do cobre. Mineiros continuam com direitos trabalhistas e condições de trabalho precárias (tanto que outros mineiros envolvidos no caso somente receberam indenizações mais de um ano depois). Piñera continua com a popularidade baixa. É, pelo visto algumas coisas precisam de muitos mais do que um ano para mudar e nem sempre serão a mídia e o governo aqueles que ditarão o que é de fato um divisor de águas. É isso aí pessoal, postando, questionando, comparando e relembrando.


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