Quão distantes estão o soldado e o diplomata?

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Entre ontem e hoje, os canais de notícias brasileiros têm todos se focado na demissão do Ministro da Defesa, Nelson Jobim, por suas declarações desafortunadas. Enquanto muitos têm questionado aquilo que ele falou ou poderia falar, acabam por deixar passar ou mesmo aceitar plenamente outras manifestações que podem, até certo ponto, ser consideradas tão polêmicas quanto.

Assim que a presidente Dilma Rousseff demitiu Jobim, imediatamente já anunciou o novo ministro que iria ocupar o cargo. O sortudo da vez foi Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores do governo Lula e um diplomata de carreira. É aí que a outra polêmica começa. Espere aí, um diplomata no ministério da Defesa? Desde quando diplomata gosta de guerra? Não é estranho colocar alguém que só trabalha para prevenir guerras no comando das três Forças Armadas do país?

De fato, esse questionamento existe tanto do ponto de vista civil quanto do ponto de vista militar. Como fica explícito na notícia veiculada pela Folha de S. Paulo no dia 05/08, quando retratam que em entrevista com um militar sobre a escolha de Amorim, obteve-se uma resposta bem negativa acompanhada da seguinte analogia: “é como colocar um médico para cuidar de um necrotério”. Alguns o falam e outros o absorvem, sem de fato refletir no que ele siginifica.

Isso é resultado de uma cultura política que após longos e tristes anos ditatoriais ainda existe no Brasil, e no interior das Forças Armadas do país, apontando que defender deve ser tarefa dos militares em todos os aspectos (desde o planejamento tático e estratégico até as vias de fato da guerra). Existe também outro ponto, aquele de uma antiga rivalidade entre o Itamaraty e as instituições militares do país, uma espécie de luta de egos, de busca por maior reconhecimento e legitimidade. Um tentando mostrar que é mais importante para o país que a outra, quando parece que são muito mais próximas do que se imagina.

Por isso, o que um famoso estudioso das relações internacionais apontou sobre a natureza da relação entre os países ajuda um pouco a entender a importância de cada uma dessas instituições e, como elas são muito mais complementares do que necessariamente opostas. Para ele, haveria dois aspectos por trás das relações entre os países: a guerra e a diplomacia. Sendo um soldado e um diplomata a síntese de como elas poderiam ocorrer. De um lado a guerra de outro as negociações. Duas possibilidades que caminham lado a lado e de mãos atadas. Dessa maneira, ambos seriam duas faces de uma mesma moeda, duas formas de defender um mesmo interesse, o do país.

Agora, após avaliar o quão próximas são a diplomacia e as Forças Armadas, questiono-me, é tão estranho assim ver um diplomata a frente do ministério da Defesa?


Categorias: Brasil, Polêmica, Política e Política Externa


4 comments
Raphael Lima
Raphael Lima

Mário e Giovanni, primeiramente, obrigado pelos comentários e pelos elogios.Como vocês dois muito bem disseram, a questão da Defesa nacional é tratada no Brasil de acordo com a conveniência política, o capital político que pode gerar e, como tem sido na maioria das vezes, na hora de polêmicas. Sinceramente, como já disse no post, o militar e o diplomata são duas faces de uma mesma moeda. No mais das vezes, as rusgas e preconceitos entre instituições os impedem de trabalhar com a complementariedade que lhes é própria, os distanciam e divergem esforços políticos em torno da defesa.Espero que, com o tempo, no Brasil, os militares e os diplomatas conformem seu "destino das paralelas", como afirma Hector Saint-Pierre em um texto seu.Não vejo como um diplomata, ainda mais com a experiência de Amorim, não possa contribuir na construção dos caminhos que o Brasil tem escolhido para defesa. Mas, em se tratando de política e de personalismos, como você bem apontou, Giovanni, podemos recair na velha retórica e na inação.

Giovanni Okado
Giovanni Okado

Este foi um post extremamente relevante, Raphael. Muito bom você ter trabalhado com a complementaridade entre o diplomata e o militar. Em horas como esta, é que se vê, como bem disse o Mario, o total despreparo, sobretudo, por parte dos políticos, para lidar com questões de defesa nacional. Aqui, só se fala no assunto, quando acontece crise ou polêmica. Em menor expressão, o assunto é abordado quando se levanta a compra de armamentos. E, para variar, sempre é tratado de maneira mal-compreendida ou pejorativa.Se me permitir, gostaria de continuar com uma frase de Aron (que você menciona implicitamente no texto), para ilustrar bem a questão por tratada no post: "Quando se recusa a recorrer aos meios violentos, o diplomata não se esquece da possibilidade e das exigências de arbitragem pelas armas." Além disso, é importante ressaltar que, de acordo com nossos documentos de defesa (PDN's 1996 e 2005 e END 2008), a defesa é uma atividade eminentemente voltada para fora, para conter ameaças externas. Um diplomata, com a experiência do Amorim, pode contribuir para avaliar tais ameaças.Por outro lado, há também os vícios e o personalismo, ou a tal da visão ideológica, sustendada por alguns de seus críticos. Particularmente, eu penso que o Amorim é mais arrojado que o Jobim e, embora crítico da END, ele incorpora o espírito do documento, qual seja de pensar o Brasil como um país em vias de se tornar uma potência. Resta saber se ele não colocará a carroça na frente dos bois para o mero exercício de retórica. Por hora, limito-me a estes comentários. Parabéns, Raphael!

Mário Machado
Mário Machado

É estranho por que assim é a Esplanada. Não é só uma questão de macro-política e estratégia onde parte do "Brasil grande" do Amorim encontra eco na caserna, mas é também questão das burocracias, visões de mundo e preconceitos de parte a parte. Mas, o PIOR e tenho que escrever sobre isso é a total falta de quadros políticos ligados aos temas de defesa. Isso sim assusta bastante.Abraços do sumido,