Quando um não fala…

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Durante esta semana dois fatos me chamaram a atenção. Primeiro: é Furacão Sandy pra todo lado. Abria a seção dita “Internacional” em sites de jornais – a exemplo de Estadão, Le Monde, New York Times, The Economist, El Pais – e sempre havia uma notícia sobre o ciclone. Nada contra, realmente é um fenômeno de consequências muitas vezes irremediáveis, mas isso me remeteu ao segundo ponto. Este, por sua vez, tomou forma quando vi somente no Facebook algumas notícias sobre os casos dos índios Guaranis Kaiowás no Mato Grosso do Sul e do referendo para aprovação de uma nova constituição na Islândia. 

Novamente afirmo, nada contra o Sandy, até porque ele deve, sim, estar presente nos noticiários em qualquer tipo de mídia (inclusive aqui na Página Internacional no post logo abaixo). Contudo, o meu principal argumento vem do segundo fato levantado: no Brasil, a grande mídia oculta acontecimentos importantes. Normalmente quando se abre a página “Internacional” dos jornais tem-se um “arrepio” por parte de qualquer estudante da área. Talvez por um simples motivo: aquilo é tudo, menos internacional no sentido mais puro da palavra. 

Tudo bem o NYT falar repetidamente do furacão, mas por que o Estadão coloca uma notícia sobre ele e deixa em segundo plano a questão dos índios Guaranis Kaiowás? Sinceramente, não dá pra entender. Nem vou falar das mídias televisivas, porque, em sua grande maioria, são horríveis e porque eu também não acompanho estes noticiários. Notadamente, são canais mais conservadores (alguns liberais) e, por mais óbvio que seja, defendem seus pontos de vista. Todavia, fazer isso por omissão e não por contraposição de fatos é ignorância pura! 

E a principal questão é que as pessoas se interessam pelos outros fenômenos. O maior exemplo disso foi o já citado Facebook. Normalmente usado para bisbilhotar vida alheia ou colocar “n” fotos tiradas com um “IPAD geração 50”, a plataforma online tem um caráter valorativo gigantesco, inclusive para tocar nestes pontos mencionados no presente texto. Foi assim com a questão dos índios que se tornou “viral” e, em menor número, com o referendo realizado na Islândia para aprovação de uma nova constituição elaborada por dirigentes escolhidos pelo e para o povo em sua totalidade. Pude observar esta movimentação repetidamente esta semana na rede social. 

Agora, se você não sabe o que está acontecendo no Mato Grosso do Sul e/ou com os cidadãos islandeses, fique atento. No caso das notícias internacionais, além do Estadão e da Folha que são os mais circulados, leia Diplomatique Brasil, Carta Capital e até a Veja. Sim, até a Veja, porque, para criticar, é preciso ler. O mais importante é ler o máximo de canais possível, independentemente de posição ideológica. O nosso verdadeiro problema internacional, guardadas suas devidas proporções, não é o Sandy, mas sim o descaso com os índios. Afinal, nada mais interno que seja internacional e vice-versa.


Categorias: Brasil, Mídia


1 comments
Pri Rosso
Pri Rosso

Ótimo post Caio, muito atual e verídico. Realmente, além da mídia que oculta esses fatos, temos uma maioria de internacionalistas que despreza o interno em detrimento do externo, como se a nossa política "de dentro de casa" não interferisse nas ações do Brasil lá fora.