Quando o bem na verdade faz mal…

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Quando falamos de Assistência Humanitária, a visão de “fazer o bem” parece absolutamente intrínseca. E, de fato, assim deve(ria) ser. Acontece que, frequentemente, ao pensarmos fazer o bem, podemos estar, na verdade, mais prejudicando que ajudando uma comunidade em crise. A perspectiva de um “colonialismo humanitário” infelizmente não é descartada nos dias de hoje. 

Todas as atividades de ação humanitária possuem como objetivo principal aliviar o sofrimento humano em situações de urgência. Trata-se de oferecer os meios de sobrevivência e promover o bem-estar a comunidades que por si próprias, em um dado momento, não possuem condições de construir esses meios devido a fatores extremos. Até aí, tudo muito claro. 

Entretanto, dois aspectos negativos recorrentes nesse processo devem ser ressaltados. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que o que se considera “assistência humanitária” deve se resumir ao curto prazo, com intervenções diretas por parte de Organizações Não-Governamentais ou Organizações Internacionais. A partir do momento em que essa etapa de urgência se estende indeterminadamente – sem ser seguida pela construção local de estratégias de desenvolvimento a longo prazo – o bem que se acredita estar promovendo na verdade pode ser prejudicial à sociedade em questão. 

Se uma comunidade, depois do momento crítico de urgência, ao contrário de ser incentivada a “pescar”, continuar “recebendo o peixe” por um tempo indeterminado, cria-se um eixo de dependência indevido. E tem-se, portanto, um novo colonialismo em vista, o chamado “colonialismo humanitário”. Assunto ainda bastante debatido, saber o exato momento em que projetos de cunho desenvolvimentista devem ser postos em prática nem sempre é evidente. Um planejamento amplo e bastante próximo às comunidades afetadas é essencial para evitar graves problemas futuros.

E, finalmente, um segundo aspecto a ser destacado é o conceito que Christian Dupuis define como “body count mentality”. Segundo este médico belga com extensa carreira humanitária (leiam seu mais conhecido e breve artigo em inglês aqui), ao subestimar as capacidades locais no âmbito médico, por exemplo, crianças que sofrem de lábio leporino no Vietnã são utilizadas como “cobaias” de médicos europeus sem grande experiência prática. Impulsionar a medicina local (frequentemente subestimada), ao contrário, exigiria quantias de investimento bastante menores com um impacto futuro enormemente maior. [Somente para se ter uma ideia clara dos custos: uma operação de lábio leporino por um médico estrangeiro no sudeste asiático custa US$ 1000; a mesma operação feita por um cirurgião local custa US$ 80.] 

E por que ainda hoje a opção com custo x benefício mais interessante é frequentemente deixada em segundo plano? Exatamente pela perspectiva quantitativa de “body count”. Treinar os cirurgiões locais, neste caso, é um processo muito mais lento que trazer estrangeiros para oferecer os mesmos serviços. Grandes doadores, governos e demais detentores de fundos baseiam-se na relação quantidade de beneficiados x tempo para avaliar a efetividade de um projeto. Relação que se mostra perversa em boa parte das situações. 

Compreender a complexidade de interesses que se escondem (ou às vezes não) por trás da ideia de “fazer o bem” é essencial para que sejam promovidos, efetivamente, resultados coerentes com esta intenção inicial – e não apenas baseados em interesses internacionais desconectados das realidades locais afetadas. 


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Organizações Internacionais


2 comments
Pedro Paulo
Pedro Paulo

Bom texto para abrir os olhos de quem estuda essa temática sem o mínimo de senso crítico necessário. Quando possível, acho que seria interessante passear pelo estado da arte das diferentes vertentes teóricas relativas aos Organismos Internacionais.

Anonymous
Anonymous

Prezada Bianca,Parabéns pelo analise . Um assunto sempre atual.Harley