Quando as Tulipas Murcham

Por

Até hoje são vistos os efeitos da fragmentação da antiga União Soviética. Muitos daqueles que vieram a compor a Comunidade dos Estados Independentes (CEI) foram palco de uma incansável luta contra os fantasmas do autoritarismo que assombravam a região com base na infindável busca desses países pela tão sonhada democracia. O que era mais comum nesse cenário eram fraudes eleitorais, perseguição de opositores e um governo de censuras. A insatisfação das populações logo fez com que surgissem no horizonte diversas revoluções. A Revolução das Rosas na Geórgia em 2003, a Revolução Laranja na Ucrânia em 2003 e a Revolução das Tulipas no Quirguistão em 2005 são alguns dos exemplos. Mesmo com as diferentes cores e contextos internos, essas revoluções dividiam a preocupação com uma democracia estável.


Apesar das revoluções, as relações conflitivas não pararam. Seja por interesses estratégicos de grandes potências, seja pela velha questão da democracia. Parece que naquele jardim florido pós revolução do Quirguistão, as tulipas acabaram por murchar. Recentemente, a grande insatisfação do forte grupo de oposição, Movimento Popular do Quirguistão (NDK muito heterogêneo contendo até elites de diversas regiões do país), que levou o presidente Kurmanbek Bakiyev ao poder, realizou um movimento muito similar ao anterior só que dessa vez para depô-lo.


Irônico não? E além dessa grande ironia da política internacional, as semelhanças entre os dois movimentos ainda são enormes. Na Revolução, a insatisfação que se iniciou com a as eleições parlamentares se estendeu para o antigo presidente, Askar Akayev, frente à sua busca por centralização do poder, fraude e perseguições, contra o antigo presidente. Os manifestantes (que não eram somente a oposição, já que a NDK teve apenas papel essencial na ocupação da sede governo central) ocuparam a sede dos governos regionais e o da capital urgindo pela deposição do presidente. Coincidentemente, as manifestações recentes não eram compostas somente por membros da oposição e a sede do governo central foi ocupada também. Resultado: mais um presidente deposto. As denúncias agora eram de violações de direitos humanos, fraudes e corrupção.


Algo interessante a notar é a questão do presidente deposto. Após o governo interino convocar eleições no pós revolução a aprovação de Bakiyev foi de 89%. O mais interessante é que o presidente era o primeiro ministro do governo deposto no movimento de 2005 e não tinha posturas muito diferentes daquelas do presidente da época (cabe notar que até fora membro do exército vermelho na década de 1980 e agindo ocupando posições no governo da URSS).


Outra questão muito peculiar foi a atuação externa nesses dois movimentos. Enquanto na Revolução das Tulipas o movimento foi predominantemente interno, no recente movimento parece que haviam outros interesses geoestratégicos envolvidos. O Quirguistão é a sede de uma das principais bases estadunidenses que abastece o Afeganistão. Assim, a Rússia em diversas ocasiões já fizera fortes pressões para que o país fechasse a base dos EUA e paralelamente os EUA faziam forças opostas para mantê-la. E parece que a influência russa nesse caso levando ao recente anúncio quirguiz de possível fechamento da base dos EUA. Que coincidência! O anúncio veio logo depois que um presidente favorável às posturas do Tio Sam foi deposto e ainda mais quando o apoio russo ao ocorrido foi exacerbado.


As bases militares na região são essenciais aos EUA para que mantenham o abastecimento de tropas no Afeganistão e esse movimento da Rússia pode até gerar algumas mudanças na política externa estadunidense para a região. Paralelamente essa revolução quirguiz representa uma forte movimentação da sociedade civil em exercício da liberdade democrática (mesmo fazendo uso de protestos agressivos), com base em atitudes mais pró-ativas. Assim, quando as tulipas murcham outros brotos desabrocham possibilitando um passo a frente rumo à democracia e despertam o olhar do mundo para os interesses geoestratégicos das grandes potências na região.


Categorias: Ásia e Oceania


0 comments