Quando a fome se junta com a vontade de comer

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Em meio a todo o oba-oba da reunião do G-20, uma coisa importante aconteceu por aqui, como bem lembrou na edição desta segunda-feira do Valor Sergio Leo em sua coluna semanal (esta matéria me serviu base para este post).

O que é, afinal? Nada mais nada menos do que a visita ao Brasil do polêmico Mahmoud Ahmadinejad, presidente do mais polêmico ainda Irã. Ele deverá vir pra cá até Junho, em pleno período eleitoral no país. Na semana passada, esteve entre nós uma missão de alto nível chefiada pelo chanceller Monouchehr Moutakki.

Aliás, ele já está querendo vir pra cá desde o meio de 2007 e, em 2008, houve uma missão brasileira chefiada por Amorim em Teerã. Pois é, os flertes Brasil-Irã já não vêm de hoje…

Mas tenham calma, tudo no mundo se explica. E neste caso as questões econômicas dão grande parte do entendimento sobre o caso. Além, é claro, da mudança de foco em nossa política externa desde o governo Lula, que tem priorizado relações com países do Sul (não o geográfico, o político-econômico).

Vejam só os dados que o Leo trouxe: “o Irã é grande produtor de petróleo, mas importa 40% da gasolina e diesel que consome e é o único país da região com produção significativa de cana-de-açúcar (…) e é visto como um parceiro possível nessa área pelos brasileiros. Em 2007, foi o principal mercado das exportações brasileiras de milho, o segundo de açúcares e produtos de confeitaria, o terceiro de óleo de soja, o quarto em carne e miudezas e o sexto de outros grãos de soja. O Irã foi o principal mercado para o Brasil no Oriente Médio em 2006 e 2007 e a maior fonte de superávit (US$ 1,1 bi em 2008)”. E aí, já pensou que o Irã fosse tão importante assim para o Brasil?

Isses são nossos interesses. Mas e os deles? Sergio Leo também explica: “Os iranianos cortejam a América Latina num esforço para romper o bloqueio econômico de que são alvo por parte dos países que, como definiria o presidente Lula, são governados por gente loura de olhos azuis. Desde outubro de 2007, o país promove uma política de privatização , mas é ainda pequeno o fluxo de investimentos estrangeiros, e os iranianos já informaram que querem formar um grupo de trabalho para aumentar esses investimentos com capital brasileiro, especialmente nas áreas como siderurgia e indústria petrolífera e petroquímica (a Petrobras tem áreas de exploração por lá)”.

Pois é, pessoal. Como dizia minha vó, juntou-se a fome com a vontade de comer. O Brasil, claro, tem idéia dos desbobramentos políticos que esses gestos podem ter. No entanto, tudo também indica mudanças nas relações do mundo com o Irã após a queda das políticas de segurança do Bush.

Agora é só esperar ele chegar. Enquanto isso, veja o blog dele – isso mesmo, o blog, aqui, muito bons os comentários.


Categorias: Brasil, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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