Qual pátria de chuteiras?

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Num ano em que pressões migratórias causam tragédias entre a África e a Europa, temos caso um pouco menos trágico, mas que vai chamar muito mais atenção da mídia que centenas de africanos mortos em praias do Mediterrâneo, devido à Copa do Mundo. Ontem, o jogador de futebol Diego Costa informou que não tem intenção de defender a seleção brasileira e isso está causando revolta tanto entre a comissão técnica (segundo a qual ele está “abrindo mão do sonho de milhões de garotos”) quanto nos torcedores. E se não parece uma questão das mais relevantes, traz alguns pontos de reflexão bem pertinentes. 

Talvez a principal “acusação” contra o jogador é de que seria “antipatriótico”, um “traidor”, e se ele realmente for jogar pela Espanha deve-se esperar todo tipo de apupos em 2014. Paixão de torcedor é uma coisa meio irracional mesmo (o termo “paixão” tem a mesma origem de “doença”), mas quando a comissão cria um clima de hostilidade devido à escolha da pessoa, já temos uma questão mais espinhosa. 

Jogadores mudando de país não são novidade alguma. O grande Puskas, maestro da Hungria de 1954, teve de fugir da opressão soviética e defendeu a seleção da Espanha (que parece ter esse costume de trazer talentos de fora) em outra Copa. Mudar de país e depois se envolver com a seleção local parece uma progressão aceitável. Claro que existem casos que chegam a ser cômicos, e até moralmente questionáveis, como os times de tênis de mesa nas Olimpíadas – das delegações que chegam às etapas avançadas, o espectador vai ver um monte de nomes chineses, já que maioria são atletas naturalizados para esta função especificamente. 

Claro, não parece ser o caso de Diego. O jogador que saiu cedo do país (e até cidadania espanhola tem). A “revolta” parece ser muito mais recalque ou mesmo temor pela má fase dos atacantes do time nacional. Mas… e se ele realmente tivesse escolhido a Espanha por fatores “imorais” como o dinheiro? Seria condenável? 

Muitas vezes, os jogadores que mudam de time ao tilintar das moedas são chamados de mercenários. Dá pra fazer uma analogia bem interessante sobre isso. Lá atrás, na sua obra mais conhecida, “O Príncipe”, Maquiavel recomendava aos governantes que nunca delegassem a defesa nacional a mercenários, justamente por que eles não teriam comprometimento com o Estado, e não estariam dispostos dar a vida apenas pelo vil metal – pior ainda, poderiam mudar de lado pelo mesmo motivo. 

Devemos a isso a acepção negativa que existe até hoje para o termo “mercenário”, mas é totalmente despropositado quando pensamos em esporte, e quanto mais em outras questões mais pungentes como guerras e catástrofes. Seja um jogador de futebol, de tênis de mesa, ou um engenheiro, ou um médico, ou apenas refugiados africanos em busca de melhores condições de vida – escolher um país diferente para residir e trabalhar, e sim, por causa de uma possibilidade de renda maior, e porventura decidir (de acordo com a lei) se tornarem cidadãos do outro país, não é nenhum tipo de imoralidade. 

Já que falamos de autores clássicos, vamos lembrar também de Immanuel Kant e seu cosmopolitismo – para o filósofo, todos os homens nascem iguais, são “cidadãos do mundo”, e possuem todos os mesmo direitos. Barreiras como idioma e nações são artificiais – todos teríamos o mesmo direito a poder transitar ou habitar em qualquer pedaço da Terra. E quando pensamos que o próprio nacionalismo, que parece alimentar o tipo de crítica levantado contra o jogador, é apontado por muitos atores como uma artificialidade, uma construção social que legitima o poder do Estado, fica ainda mais frágil manter qualquer tipo de censura. 

As pessoas são livres para escolherem onde querem ser felizes, seja para fugir de uma situação insustentável, seja para jogarem futebol. Já não bastasse a rejeição ao “estrangeiro” (vejam o caso dos médicos “importados” pelo Brasil), lidar com rejeição dos seus conterrâneos não deixa de ser uma violência. E a discussão que isso levanta vai muito além dos gramados.


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