Protestos no Egito, dúvidas em Washington

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O mundo árabe está de fato nas manchetes das grandes agências de notícias. O momento é de incertezas quanto ao futuro do Egito. Uma ditadura que se estende para mais de trinta anos e uma população que há muito perdera algo tão essencial quanto o espírito democrático.

Ambiente propício para manifestações positivas em favor da democracia e das liberdades por parte dos outros países, certo? Bom, a resposta seria algo entre o sim e o não. Toda cautela é necessária em um momento como esse, e, por mais que palavras sejam muito bem escolhidas e, os discursos breves e objetivos suficientes para evitar interpretações errôneas, ainda há brechas para confusões.

Enquanto o Itamaraty foi alvo de críticas por não enrijecer seu posicionamento, os Estados Unidos passavam por um dilema um pouco mais complicado do que simplesmente emitir uma manifestação sobre os eventos. Afinal, Hosni Mubarak sempre fora uma peça importante no quebra-cabeça geopolítico estadunidense e defender sua saída representaria perder um grande apoio na região.

Os discursos foram sendo moldados enquanto os eventos prosseguiam. Primeiro, fora defendido que Mubarak não repreendesse violentamente os manifestantes e cumprisse promessas, opondo-se sempre à saída imediata do ditador. Em um segundo momento, passou para realizar reformas sociais mais amplas , negociações e até ser capaz de ver certo progresso. E logo, passou a apoiar a transição democrática no país, mesmo que sem a saída imediata do presidente.

Declarações que expressam o grande pesar do governo Obama em perder um grande aliado na região, mas que expressam bem um entendimento de certa abordagem de política internacional, que define as políticas de alianças como apenas úteis em determinados contextos e enquanto servirem aos interesses do Estado em questão.

A diplomacia estadunidense (de certo oportunismo, talvez?) já desperta inquietações em Israel, com receio do episódio da revolução islâmica do Irã repetir-se no Egito. Há até um interessante caso de pequena confusão e divergência entre a presidência e diplomata. Eventos como esse elucidam alguns questionamentos internacional e evocam muitos outros.

O quão forte são os laços forjados durante o período da tensão bipolar e quantos outros ainda poderão rapidamente sublimar? Talvez o momento atual seja o de busca de alianças mais sólidas para os Estados Unidos para evitar algum descrédito emergido na agenda da “guerra ao terror” no mundo árabe, ou, talvez, seja simplesmente um movimento oportunista para ficar do lado do time que está ganhando. Seja o que for, o futuro do Egito ainda está incerto e, da mesma forma, está a influência estadunidense no país.


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


2 comments
Duque de Bragança
Duque de Bragança

A dialética Poder versus Moral é o tema central da Parte III do basilar "Vinte Anos de Crise". Creio que a reação dos EUA perante a "Revolta da Praça Tahrir" é um exemplo empírico da discussão de E.H. Carr na referida seção de sua obra: apoiar um aliado importante e certo, de longa data, ou sustentar um discurso (próprio da moral estadunidense) de liberdade, democracia e autodeterminação? As últimas notícias demonstram que os Estados Unidos terão de lidar com a segunda opção. De Mubarak algum gerente de hotel irá se encarregar, e com prazer eu diria.

Danillo Alarcon
Danillo Alarcon

A prudência dos EUA, por si só, é interessante. E não deixa de ser um claro aviso a Israel que os EUA e os israelenses podem ter perspectivas diferentes quanto ao mundo muçulmano. E não acredito que seja 'oportunismo'. Nenhum lado ganhou ainda, ou alias, Mubarak dá provas de que pretende comandar a transição de governo. Acredito na cautela, caracteristica essa que faltou inúmeras vezes nas relações de Washington com o mundo muçulmano.