Problemas de primeiro mundo

Por

obama dilma

Há algumas semanas tivemos um post sobre eleições e suas consequências. Uma das mais importantes mencionadas era justamente a que ocorrerá amanhã nos EUA, a chamada eleição do “midterm”, quando os eleitores fazem a escolha do Legislativo. Após os eventos da última semana, não tem como não traçar um paralelo com o Brasil.

A impopularidade crescente de Obama por conta da economia e deslizes na política externa podem ter seu preço, com a possibilidade real de os Republicanos tomarem a maioria no Senado (atualmente dos Democratas por seis cadeiras) e expandirem seu domínio na Câmara. Com isso Obama corre o risco de herdar um país ingovernável por dois anos, em que o Congresso terá o poder de barrar quaisquer medidas que desejar e abrir caminho para a oposição nas eleições presidenciais de 2016.

Ora, o que vemos no Brasil? Na semana passada o governo aumentou a taxa básica de juros (indo contra sua propaganda eleitoral) e está em queda de braço com o Congresso por conta da rejeição de um decreto sobre comitês populares. Apesar de ser uma das medidas que efetivamente trariam mais participação política ao cidadão (e satisfazendo a tal “sede de mudanças políticas”), deve ser rejeitado um pouco por obra da oposição (ainda mordida pela derrota na última semana) e um pouco por uma revolta de partidos da base aliada (que querem colher os frutos do apoio no pleito).

Não se trata de uma discussão ideológica, mas política. O que importa não é o conteúdo do ato administrativo, mas o resultado da sua rejeição, visto como danoso ao governo. As situações de Brasil e EUA, nesse momento, são relativamente parecidas. Claro que não podemos igualar a situação de um bipartidarismo de facto como o americano com a farra de 28 partidos que elegemos em 2014. E enquanto Obama está à própria sorte, Dilma ainda tem maioria no Congresso, mas com uma margem de manobra extremamente reduzida comparando aos governos anteriores. Contudo, considerando que governo e oposição se aglomeram em torno de dois partidos, temos algo similar, com a grande diferença sendo a existência daquele monólito chamado PMDB, sempre pronto a agradar qualquer um dos lados em troca de bocados políticos (e que, de certa maneira, faz a coisa toda funcionar já que possibilita a maleabilidade que inexiste no modelo bipolarizado norte-americano).

Na verdade isso é comum a quase todos os sistemas políticos que se proponham a ser democráticos. Mas Obama e Dilma terão anos visivelmente complicados daqui em diante, com um Legislativo arredio e de certo modo interessado apenas nas consequências para o próximo ciclo eleitoral. Podemos dizer que enfrentamos “problemas de primeiro mundo”, mas não no sentido usual de algo frívolo ou que não se compara aos problemas mais graves de países empobrecidos. E quando a atividade política deixa de ser um meio para o bem da comunidade (com a replicação de discursos dicotômicos e emperramento da máquina pública) e se torna um fim em si mesma, seja de perpetuação no poder ou de busca pelo mesmo, a sociedade perde como um todo.


Categorias: Américas, Brasil, Estados Unidos, Política e Política Externa