Primeiro-ministro à Berlusconi

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O inventário de escândalos envolvendo o primeiro-ministro italiano aparentemente segue uma só tendência. Quando os mais cautos pensam que a fonte secou, logo surgem novos episódios para demonstrar o comprometimento de Berlusconi em criar problemas. Como se não bastasse a crise econômica, o líder da nação tem, digamos, um comportamento pouco alinhado em relação ao que se deveria esperar. Afinal, ser acusado de peculato, sonegação de impostos, suborno e falsificação de registros contábeis já não é para qualquer um. Contudo, nosso personagem vai além, a suas famosas farras com menores de idade foram noticiadas mundo afora.

A mesma Itália que, em 2011, celebrou os 150 anos de sua unificação pouco tem a comemorar. Um país em rota decrescente, empobrecido, endividado e desmoralizado ante constantes escândalos políticos. O último capítulo desta novela foi a decisão da agência de classificação de riscos, a Standard & Poor´s, de elevar o grau de risco dos títulos da dívida italiana. Com tudo somado, acentua-se a situação de uma Itália cambaleante, perigosamente ensejando, de acordo com especialistas, paralelos com a Grécia. Fato é que cenários de crise, independente do seu tipo, exigem um esforço extra das lideranças, na medida em que a retomada depende da restauração da confiança, interna e externa, no plano de recuperação. Algo bem contrário a esta premissa fica expresso através da figura de Berlusconi.

Aquela austeridade, tanto clamada, foi também a saída para a Itália, mas não para seu primeiro-ministro. Em tempos que o foco deveria estar dirigido a remediar os males, descobre-se o que significa governar à Berlusconi. Sem rodeios, este bilionário assume que “em minhas horas vagas sou primeiro-ministro”. O que se poderia esperar de um líder com tal perspectiva? Se algo, certamente muito pouco. No seu rol de preocupações, governar a Itália e gerar prosperidade para seus concidadãos não deve estar em primeiro lugar. Resta saber quem está a serviço de quem, Berlusconi da Itália ou o contrário? Logo, no entanto, teremos que utilizar o verbo no passado para falar de sua passagem pelo cargo. Seus dias parecem estar contados.

Estar à mercê dos “cara de pau” não é uma tragédia apenas italiana, muito pelo contrário. Dessa vez, a fidelidade de seus aliados para esmorecer à medida que seu quadro se torna irremediável. O povo, tomando sua aprovação de 25%, não sentiria sua falta, por enquanto. Ganharia ainda, por outro lado, mais tempo para acompanhar seu (sim, ele é o dono) time de futebol, o AC Milan, e organizar com mais cuidado aquelas festas que ele tanto gosta. Talvez ainda haja tempo para celebrar alguma coisa neste 150° aniversário da unificação. Enquanto isso, Berlusconi teria ainda mais horas livres sem o hobby de ser primeiro-ministro, deve ter cansado depois da quarta tentativa. Ao menos seria um problema a menos para os italianos. No futuro, podem-se abrir novas horas vagas para brincar de ser primeiro-ministro outra vez.


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