Presidente Obama no Brasil

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Um dos exemplos mais emblemáticos do conceito “Soft Power” é o presidente Obama. Os Estados Unidos tem as forças armadas mais poderosas do mundo, investe anualmente 700 bilhões de dólares em defesa (o que equivale a três vezes o PIB do Egito), além de manter dois conflitos armados externos. Contudo, quando se pensa em Obama, qual palavra vem imediatamente a sua cabeça? Aposto que ninguém, ou quase ninguém, pensa em guerra ou associa sua imagem ao tradicional unilateralismo norte-americano. Ao invés disso, Obama significa mudança, multilateralismo, o fato novo; uma espécie retorno aos ideários dos fundadores de sua nação. Muito do que menciono obviamente não funciona na prática, mas traz uma forte carga retórica associada.

De que outra maneira se poderia explicar o seu poder de mobilizar pessoas? Obama parece ter claro que o seu principal campo de atuação para 2011 é a arena internacional. Em âmbito interno, sua “política da esperança” tem enfrentado desafios extremos e críticos vorazes. Frente a indícios cada vez mais evidentes que a política em seu país não mudará no curto prazo, talvez deixar sua marca na política internacional seja algo mais plausível. Obama não cumpriu a totalidade de suas promessas, o que terminou gerando oportunidades de críticas por vezes ácidas. Nada, no entanto, que tenha corroído sua imagem. Todos querem tirar um foto com ele, ouvir seus discursos ou ler seus livros. Que levante a mão que gostaria de tirar uma foto com George W. Bush.

Essa ambivalência que representa Obama é algo notável. Por um lado, pouco fez de diferente do establishment político internacional. Por outro, é uma das figuras mais admiradas internacionalmente. Seus discursos arrastaram multidões. Talvez sua popularidade seja maior fora de seu próprio país. Mais popular que ele somente Michelle Obama, a primeira dama. Sua visita ao Brasil foi cercada de imensa expectativa, especialmente quanto à possibilidade que incluísse um pronunciamento contundente sobre a importância do Brasil no sistema internacional. Tal fato somado a cooperação econômica e científica entre os dois países, seria o roteiro que todos gostaríamos de ver. O que podemos realmente esperar? Um efeito meramente midiático ou realmente uma renovada aliança entre Brasil e Estados Unidos?

Passamos para o ato principal: o pronunciamento no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. De acordo com o previsto, Obama enfocou seu discurso na parceria entre Estados Unidos e Brasil. Mais além da cooperação entre governos, uma aliança entre os cidadãos, entre as nações. Entre os pontos mais importantes, o presidente norte-americano destacou a fundo histórico comum, ambos como parte de um “Novo Mundo” dominado por metrópoles, que logo conseguiram conquistar suas independências. Além disso, a democracia representou para ambos os países um caminho para liberdade, crescimento econômico e prosperidade. O país do futuro, ainda nas palavras de Obama, viu sua vez chegar. O Brasil é um exemplo do que a democracia pode gerar. Nesse sentido, nossa aliança, que se funda em valores e exemplos comuns, poderia ser intensificada em diversos setores.

Caminha para o fim a tão esperada visita do presidente norte-americano. Fica a esperança que essa aliança entre nossos países torne-se efetivamente discussões de igual para igual, como apregoou Obama. Para um país que busca o palco principal no sistema internacional, a abertura e o reconhecimento da (ainda) maior potência mundial pode ser um caminho profícuo. Para os que esperavam uma declaração ainda mais contundente, apoiando aspirações brasileiras nas Nações Unidas, talvez fique uma sensação de decepção. Resta, independente do ponto de vista, a oportunidade de capitalizar em nossa reafirmada parceria.


Categorias: Américas, Estados Unidos


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