Presentes de grego

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Desde o ano passado que temos falado no blog sobre a trágica situação de crise de dívida pública em alguns países da União Europeia. Esse é um momento de tamanha dificuldade que se tem questionado o tamanho dos custos dessa integração europeia e o quão dispostos em socorrer as porcalhadas de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha (chamados pejorativamente de PIIGS pela imprensa, baseados nos nomes dos países em inglês).

E hoje a Grécia ainda está emersa nos graves efeitos dessa severa crise. Após a aprovação, no ano passado, daquele famoso pacote de austeridade fiscal que foi seguido de um pacote de ajuda de 110 bilhões de euros (a serem liberados gradualmente) pelo FMI e pelo bloco europeu, esses dois credores se preparam para liberar mais 12 bilhões de euros da quantia.

Só que, como da última vez, para garantir mais uma parte do valor, a Grécia precisaria aprovar mais medidas de austeridade fiscal, significando cortes de gastos públicos em geral, como saúde, educação, reduzir salários, demitir funcionários públicos, realizar as sempre polêmicas privatizações, entre outras. O primeiro passo em direção da consolidação dessas novas medidas já foi dado: o voto de confiança do parlamento do primeiro ministro grego, George Papandreou (cabe notar que os 158 votos que recebeu vieram do Partido Socialista, seu próprio partido).

Agora resta somente aguardar até a semana que vem quando o parlamento votará no novo pacote.

Se esse é um bom presente (apesar de questionar-se se é suficiente) para uma Grécia que sem essa quantia não conseguiria nem pagar suas dívidas do próximo mês, para a maior parte dos cidadãos gregos é tido apenas como mais um presente de grego, um conjunto de medidas extremamente impopulares. Isso porque não há previsões de o país recuperar-se no curto prazo, e acredita-se que ficará imerso em pacotes de austeridade pelos próximos quatro anos.

O que, em outras palavras, significa quase meia década sem crescimento real, quase meia década sem recuperação das produções nacionais e quase meia década de dificuldades para o povo grego. Situação já bem compreendida pela população grega que já saiu em protestos na noite da aprovação do voto de confiança do primeiro ministro.

Mas a questão que emerge é o que fazer? O que fazer se os custos de sustentar uma Grécia falida são altíssimos e se uma moratória grega representaria quebradeiras generalizadas de bancos na Europa (já que grande parte dos títulos da dívida pública da Grécia foram adquiridos por bancos alemães, ingleses e franceses)? O que fazer se o caminho para a recuperação implica em um severo prejuízo social?

Essas questões são muito mais complexas do que parecem e são aquelas que os próprios policymakers da UE e da Grécia tem se perguntado. E, enquanto isso, a população se revolta, mas espera que esses presentes de grego, no longo prazo, tornem-se o grande presente da recuperação grega.

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Categorias: Economia, Europa, Política e Política Externa


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