Prêmio de consolação

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Finalmente, Liu Xiaobo soube que foi laureado com o prêmio Nobel da Paz de 2010. O ativista chinês, preso, soube do ocorrido por meio de sua esposa e teria dedicado o prêmio aos que pereceram nos protestos da Praça da Paz Celestial em 1989. O Nobel é um legado do criador da dinamite, preocupado com o uso militar de sua invenção mais famosa e explosivos derivados, que criou a instituição responsável pelos prêmios como forma de “limpar” sua reputação futura, agraciando aqueles que fariam grandes coisas pela humanidade. A premiação em si acaba sendo discutível em diversos aspectos – notavelmente o de Literatura, sempre polêmico; mesmo a premiação do Obama ano passado foi surpreendente de certo modo. Ora, Liu não é diferente: tem opositores inclusive entre os ativistas chineses (muitos dizem que não mereceria ganhar, ou que havia outros mais merecedores), e certamente teve sua premiação mais pelo que simboliza do que por suas atividades em si.

De fato, essa premiação não teve outra função que a de levar à reflexão sobre os direitos humanos na China, (basta ver a repercussão mundial) e, por conseguinte, até que ponto o crescimento econômico vai ser sustentado nas bases políticas atuais. É uma discussão até meio batida, pois os chineses são sempre esguios e persuasivos quando se entra nesse mérito. Vê-se que a economia chinesa encontra-se em um patamar aterrador de simplicidade e volúpia, com os ventos do livre mercado impulsionando uma nau de capitão rígido, cruel quando necessário e ligeiramente despreocupado com o bem estar de seus marujos, mas que consegue moldar a vontade destes sem questionamento (quando há subversivos, são silenciados eficazmente), extraindo o seu melhor e com vistas a um destino utópico. A China combina as duas facetas que fazem seu Estado avançar impetuosamente, uma economia dinâmica com política totalmente controlada, favorecendo enormemente seu crescimento e assombrando os países democráticos com seu modelo antípoda e aparentemente exitoso.

E o que pode frear a economia chinesa? O colapso de um desses pilares – ou uma mudança radical na economia, como uma bolha estourando ou eventos cataclísmicos, ou uma mudança política, com abertura democrática que faria ruir esse Estado onipresente. O primeiro ponto parece o mais fundamental (e viável), mas pelo rumo que as coisas tomam é muito difícil que algo dessa natureza ocorra em futuro próximo. Já o segundo é o mais improvável, e de modo paradoxal o que potencialmente traria mais impactos reais à sociedade chinesa. A existência de discordâncias com o regime de Pequim é incontestável, e independentemente de sua legitimidade ou reconhecimento perante o governo, demonstram que há insatisfação. Seria questão de tempo até que maiores parcelas da população fiquem inquietas e se tornem “subversivos”? É difícil até quantificar.

É curioso reparar que o prêmio IgNobel da Paz de 2010 (sátira do Nobel, que elenca contribuições não tão importantes da ciência à humanidade…) tenha sido dado a pesquisadores que comprovaram a popular crença de que xingar em alto e bom som durante momentos de dor faz com que esta diminua. Assim como Liu e tantos outros dissidentes, espero que um dia cidadãos chineses possam vociferar contra seu regime para aplacar seus sofrimentos, sem o risco do pelotão de fuzilamento.


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Polêmica


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