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O jogo dos 213 erros

Quito, Equador

Seguindo os eventos da última quinta-feira, é evidente que o clima de normalidade, pouco a pouco, ganha as ruas de Quito. O presidente Correa, já na sexta-feira pela manhã, agradeceu o apoio dos seus ministros e de diplomatas ligados a UNASUR, aproveitando para reiterar o que chamou de intento golpista. Mais do que isso, segundo o mandatário houve claras tentativas de assassiná-lo. O saldo do evento foi de 13 mortos e 200 feridos, segundo veículos da mídia local. Além disso, diversos furtos, saques e ameaça a ordem foram registrados nas principais cidades equatorianas. Os erros estão por todos os lados, independente do cenário que se considere.

Se era um movimento corporativista (policiais e setores militares) contra a nova Lei que aprovara o Congresso Nacional para os servidores públicos, provou-se como um verdadeiro fracasso. Romper a ordem e descumprir seu dever constitucional para criar condições favoráveis a uma re-negociação da proposta advinda do Palácio Governamental, não só dificulta a volta de benefícios anteriores como aumenta o apoio popular a qualquer medida que Correa proponha. Se era uma tentativa de golpe, desconsiderando o setor que poderia organizá-la, serviu somente para fortalecer o já amplamente popular e beneficiado por novas prerrogativas constitucionais, Rafael Correa.

Voltemos a uma questão fundamental neste jogo de erros: a irresponsabilidade. A exaltação foi exacerbada, em grande medida por discursos e declarações de membros do Gabinete do presidente. Clamaram que o povo fora resgatar o presidente seqüestrado por golpistas e que defendessem o Palácio de Governo. O sangue equatoriano foi derramado. Poderia ter sido muito pior, a meu ver pela irresponsabilidade de figuras ligadas aos establishment de Correa. O erro não foi exclusivamente dos insurgentes, como tende a inferir os governistas. Não há comprovação de uma tentativa de Golpe contra a democracia equatoriana, contudo a retórica correísta está cada vez mais afiada. Se a aprovação da presidência, segundo estimativas oficiais, já era de quase 75%, a oposição – mesmo que não tenha tido qualquer envolvimento dos eventos da última quinta-feira – vê seu campo de trabalho cada vez mais limitado. Temo, inclusive, que Correa possa passar a governar como um Imperador a partir de agora.

Por fim, é válido mencionar a cobertura da imprensa local sobre os fatídicos eventos. Durante boa parte da tarde de quinta-feira, não houve televisão aberta no Equador. Todos os canais foram obrigados a transmitir o sinal da televisão estatal, assim como as páginas online dos principais jornais do país colapsaram. Assim, evidentemente a cobertura jornalística ficou limitada e teve um viés governamental. A mesma Constituição que cria uma divisão de poderes em cinco partes – somam-se aos tradicionais de Montesquieu, a Transparência e Controle Social; e o Eleitoral – oferece poderes extras a Correa, como a possibilidade de dissolver o Congresso em caso de obstrução ao plano de desenvolvimento, comoção interna ou crise política; tal qual a possibilidade de adotar as medidas que foram tomadas durante o atual regime de exceção. Tudo indica que o fortalecimento de Correa aumentará seu discurso pró-Revolução Cidadã e trará condições a dificultar qualquer obstrução oposicionista.

Enquanto famílias passeiam pelo parque “El Ejido”, militares portando fuzis mantém a ordem. Ninguém se desculpou pelos 213 erros. Findado o regime de exceção, novos desdobramentos devem tomar corpo. Lembrando que, nas palavras do próprio presidente, não haverá perdão a golpistas.

Mais informações: 1, 2, 3, 4, 5

 


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