Post Especial – Memórias póstumas de 2012: o final de uma era?

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[Para encerrar o ano, temos uma postagem especialíssima de nosso colega Giovanni Okado, fazendo uma retrospectiva instigante do ano que passou. O texto foi publicado originalmente no dia 22 de dezembro, no Jornal Liberdade, e contém opiniões pessoais do autor. A equipe do blog deseja um feliz ano novo a todos, e agradecemos pelo prestígio ao longo de 2012. Nos vemos em 2013!]

Caso o mundo não tenha acabado no dia 21, este artigo chegará até vocês, leitores da Página Internacional. Em meio a esse clima, com traços de romance machadiano, convém recordar as memórias póstumas de 2012. Memórias que, como há décadas já revelaram os arqueólogos, encerram uma era ao invés de anunciarem o fim dos tempos. 

O primeiro artigo que Fidel Castro escreveu este ano é intitulado “A marcha em direção ao abismo”. Nele, o ex-mandatário cubano colocou em xeque o Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos, proclamado pela ONU em 2012. Hoje, o mundo atravessa uma crítica corrida energética. E uma das grandes promessas para assegurar o abastecimento energético, o gás de xisto, do qual se extraem o gás natural e petróleo, não tem nada de sustentável. 

O ano de 2012 talvez marque o final de uma era energética. Desde meados da década de 1970, ela foi dominada pelas epopeias petrolíferas no Oriente Médio. Agora, outra era se inicia com o abandono das expectativas quanto às fontes renováveis alternativas e com o renascimento abrupto do petróleo. Os EUA finalmente estão encontrando no interior o que tanto buscaram lá fora: segurança e autossuficiências energéticas. E a América do Sul, seja com o pré-sal no Brasil, seja com o gás de xisto na Argentina, deve se ocupar um lugar estratégico na geopolítica mundial. 

A economia mundial está estagnada. Surgem novos pólos dinâmicos de crescimento econômico. Acompanhando o sucesso do hit mais visto no Youtube em 2012, Gangnam Style, a Coréia do Sul se converteu em um pólo de alta tecnologia e industrialização. O país compõe um novo acrônimo, o Mist, em conjunto com México, Indonésia e Turquia, que está mais em alta do que o tradicional Brics. Enquanto isso, os efeitos da crise financeira são cada vez piores na Europa: na Espanha, o desemprego atingiu 25% da população e, na Grécia, a previsão do crescimento econômico, em 2012, é -4,7% e a dívida pública alcançou 165% de seu PIB. 

Nesse ambiente de crise financeira, os países emergentes – particularmente Brasil e Venezuela –, com seus respectivos modelos de desenvolvimento econômico, tem dado respostas diferentes dos países ricos para seus cidadãos. A regra de ouro é crescer promovendo a distribuição de renda e a inclusão social. Eis aí também o desafio: um não é sinônimo do outro. Distribuir renda não pressupõe a eliminação da pobreza, e sim uma etapa para superá-la. Um analista norte-americano considera que, no século XXI, haverá uma disputa entre os tipos concorrentes de capitalismo para saber qual prevalecerá sobre os outros. Seriam sinais de uma nova era? 

Um en passant sobre fatos que marcaram 2012 proporciona recordações alegres e tristes, boas e ruins. Os tiros em Sandy Hook, o recrudescimento do conflito árabe-palestino, o agravamento da situação na Síria, os ataques terroristas no Afeganistão e no Iraque, a iminência de uma guerra entre Japão e China, os campos de refugiados na África, entre outros acontecimentos. O clamor pela liberdade, uma das esperanças da Primavera Árabe, é cada vez mais sucumbido pelo conservadorismo das elites dirigentes, que transformam a religião no principal instrumento da política. 

Duas reeleições foram muito comentadas neste ano: Obama, nos EUA, e Chávez, na Venezuela. O líder norte-americano precisará negociar com os republicanos a saída do “abismo fiscal”; o líder venezuelano deverá garantir a continuidade de seu projeto bolivariano. As Olimpíadas, por sua vez, consagraram nomes e criaram lendas, além de protagonizarem um novo embate pela hegemonia esportiva: EUA x China. E a grande descoberta científica de 2012, o Bóson de Higgs, a chamada “partícula de Deus”, ampliará os horizontes do conhecimento da humanidade, permitindo-a compreender a estrutura fundamental da matéria e, consequentemente, o funcionamento do universo. 

O melhor exemplo para começar uma nova era, se assim acreditarmos, vem de uma menina paquistanesa de 15 anos. Malala Yousafzai é uma estudante ativista que começou a escrever em um blog para a BBC, contando acerca da vida sob o governo do Talibã no vale do Swat, no Paquistão, e lutando pelo direito de meninas frequentarem as escolas. A coragem e a perseverança quase lhe custaram a vida. No dia 9 de outubro, após constantes ameaças de morte, o Talibã resolveu atacar e uma bala ficou alojada na cabeça da jovem. Felizmente, ela sobreviveu. 

Há, portanto, esperança. As memórias póstumas de 2012, mais do que trazer a descrença, convidam à reflexão, que é essencial a ação. Diferente de Brás Cubas, não queremos morrer com o legado de nossa miséria, e sim transmitir o legado de nossas histórias, individuais ou coletivas. Um feliz Ano Novo a todos!


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