Post Especial: homenagem a Kenneth Waltz (1924-2013)

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Fonte: berkeley.edu


Não há nada mais comum para uma área científica contemporânea do que ter marcos, referências e métodos um tanto quanto atuais, digamos assim. E isso é bom porque vivenciamos algumas das principais referências das Relações Internacionais ainda em vida. Lemos livros que, embora novos, já se tornaram clássicos, e é bom saber que seus autores podem responder um email a qualquer momento. Já conheci gente, seja graduando ou pós-doutor, que recebeu resposta direta de Joseph Nye e Robert Keohane, por exemplo. 

Temos a ideia de “endeusar” autores referenciais. Comprar um livro, ler, gostar e, se tiver a oportunidade, pegar até um autógrafo. Pode parecer estranho, mas, quando estava no meu primeiro ano da faculdade e participei do Encontro Nacional de Estudantes de Relações Internacionais (ENERI) e do Encuentro de Estudiantes y Graduados en Relaciones Internacionales del Cono Sur (CONOSUR) em 2008, na cidade de Ribeirão Preto (SP), nunca vi tanta gente entusiasmada em ver figuras como Stephen Krasner e o já citado Keohane. É uma satisfação ter contato com gente que realmente faz as Relações Internacionais no sentido mais puro e pleno da palavra. 

Infelizmente, a partir de hoje, não teremos mais a sensação descrita acima com um dos maiores, senão o maior, teórico de Relações Internacionais, seja ele o neo-realista Kenneth Waltz (foto). Referenciado como “Waltz” para os scholars ou simplesmente “Ken” para os amigos e professores mais próximos, conforme pode ser visto no texto de Stephen M. Walt, tornou-se um dos mais célebres teóricos do período da Guerra Fria e, com toda certeza, no pós-Guerra. 

Ficou notadamente conhecido por duas obras centrais: “Man, the state, and War” de 1959 e “Theory of International Politics” de 1979. Além de ser um acadêmico brilhante, serviu no exército norte-americano durante a Guerra da Coreia (1950-1953) e foi totalmente contrário à invasão do Iraque em 2003. Talvez o primeiro episódio tenha provocado no autor um forte caráter realista, vedando qualquer aspecto pacifista em suas concepções políticas internacionais. 

Waltz reuniu todos os aspectos centrais em um autor para delimitar e sustentar um dos pilares do que hoje é conhecido com o terceiro debate teórico das Relações Internacionais. Foi o núcleo realista baseado na figura do Estado enquanto principal ator internacional que vivia em um ambiente internacional anárquico que deu as bases para o Neo-realismo ou Realismo Estrutural, o qual carregará para sempre a figura do autor. 

Era Professor Emérito na Universidade de Berkeley e Pesquisador Sênior da Universidade de Columbia, tendo concluído seu doutorado nesta última faculdade ainda em 1957. Soube trazer com primazia o debate da Ciência Política para as Relações Internacionais e mostrou-se polêmico com a defesa de que a proliferação de armamentos nucleares ao redor do mundo aumentaria a probabilidade de se alcançar uma paz mundial.

Como neo-realista, tinha um alto teor de abstração em seus pensamentos e conceitualizações, mas nada que retirasse o mérito de sua corrente intelectual. Seguiu mestres e deixou mais seguidores. Sua benéfica “troca de farpas” com o neoliberal Robert Keohane deixará saudades. Se existem liberalismos, é porque existiu Kenneth Waltz. Ficarão as lembranças de um ícone, de alguém que soube vivenciar a prática e transpô-la à teoria. Com certeza faltará este autógrafo em muitas bibliotecas.

PS: O email de Robert Jervis sobre o falecimento de Waltz pode ser lido aqui.


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