Post Especial: A hora e a vez do general Santos Cruz

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[Nas últimas semanas, o noticiário relatou com entusiasmo a eleição do embaixador Roberto Azevêdo para a chefia da OMC. Outra importante nomeação de um brasileiro passa pela mídia com menos alarde, mas podemos dizer que seja tão significativa quanto. Nessa postagem muito especial, o colaborador Giovanni Okado conta um pouco de sua experiência pessoal com o General Santos Cruz, designado pelas Nações Unidas para comandar a inédita brigada de intervenção da força militar da ONU no Congo. Aproveitem essa esclarecedora e surpreendente leitura, sobre homem tão singular a quem foi confiada uma missão tão importante.]



“I’m ready!”. Com essas palavras, o general Santos Cruz colocou-se à disposição, logo na primeira sondagem, no início do mês de abril, para comandar as tropas da MONUSCO. 

Nesse dia, estávamos almoçando juntos. De repente, o telefone tocou. Era o tenente-general Babacar Gaye, do Senegal, Assessor Militar do Escritório de Assuntos Militares do Departamento de Operações de Paz das Nações Unidas e Force Commander da MONUSCO entre fevereiro de 2005 e julho de 2010. A proposta estava lançada. Restavam os acertos políticos na ONU, e entre ela e os governos africanos e brasileiro.

Dia 24 de abril de 2013, chegou a carta da organização para o governo brasileiro, oficializando a proposta. No documento, foram ressaltados atributos do chefe militar: “muito dinâmico, capaz e bem respeitado, com vasta experiência, incluindo sua atuação exitosa como Force Commander da MINUSTAH de janeiro de 2007 a abril de 2009.”. Pouco menos de um mês depois, dia 17 de maio, veio o anúncio do Secretário-Geral das Nações Unidas, nomeando-o como novo comandante da força militar da MONUSCO. 

Este é um motivo de grande orgulho para todos os brasileiros. É, também, um exemplo de vida para cada um de nós. Se é verdade a célebre frase machadiana – e ela certamente o é – de que os melhores amores nascem de um minuto, então, temos muito a aprender com ele. O amor dele à pátria, à profissão, ao próximo e, sobretudo, à paz demonstra que o instante desafiador é o mais belo. E o mais duradouro. 

A fala desse combatente é ríspida, o rosto, severo. Mas o tratamento é sempre humilde, simples, educado e equilibrado, jamais superior ou inferior. É uma mistura de quem diz “tem que ser violento na ação, depois que ela acabou, termina a violência” e ao mesmo tempo fala “desde que eu me conheço por gente, sou um cara apaixonado”. Por trás da incansável farda, o guerreiro cavalheiresco, uma pessoa com quem a convivência rende boas histórias, e estas se tornam um tesouro raro. 

Tenho a sorte de ter convivido com essa personalidade ímpar. Minha admiração por ele é imensa. Ainda na graduação, durante minhas primeiras pesquisas e estudos sobre temas de segurança e defesa, deparei com o seu nome. Era o “cara” que pacificou o Haiti. Era a pessoa que estava presente nas notícias e nos relatórios que eu lia, quem eu me perguntava se um dia teria a oportunidade de conhecer. 

Conheci. Para minha surpresa, no mestrado, encontrei com ele sentado na sala de aula, na condição de aluno. Durante um semestre, fizemos uma disciplina juntos. Pudemos debater, conversar, ele e eu e com a classe toda. Eu, assim como a maioria dos alunos, mais teórico; ele, mais prático. Às vezes, o general era criticado por apresentar ideias que decorriam de sua vivência, a exemplo de frases como “para muita gente, na África, democracia é ter uma luz acesa em casa”, mas não deixava de revelar, ainda que sem o dito conhecimento que se exige no meio acadêmico, a sensatez que escapa à teoria.

Àquela época, mal esperava eu que o destino nos colocaria novamente próximos. Desta vez, no trabalho: ele, coordenando a Assessoria de Defesa da Secretaria de Assuntos Estratégicos, eu, como assessor técnico. Essa relação durou pouco, é bem verdade, foram apenas dois meses. Mas, recordando Vinícius de Moraes, foi eterna em sua duração. Uma experiência notável, que me permitiu evoluir, seja no aspecto profissional, seja no aspecto humano. 

Nenhuma manhã começava sem uma reunião em sua sala. As cadeiras se aglutinavam em torno de sua mesa. Entre muito papo, muito debate sobre o noticiário e muitos relatos de uma longa carreira militar, as tarefas eram distribuídas. Ao longo do dia, ele entrava em nossa sala, perguntava sobre o que estávamos fazendo e logo estávamos novamente papeando. Se havia, a subordinação do empregado ao chefe era pouco percebida; prevalecia a colaboração e o respeito aos seus “subordinados”, a quem ele se referia como “muito bons e inteligentes”.

Quanto aos relatos, entre tantos que não chegam à mídia, marcou-me uma história triste, mas de superação. Em uma escola caindo aos pedaços no Haiti, havia uma menina com as pernas presas aos escombros, que precisaria ser amputada não fosse a valentia de uma médica do Exército Brasileiro, apoiada pelo general Santos Cruz. Bem embaixo do edifício, em um local de acesso remoto e onde o menor barulho poderia derrubar toda a estrutura que sobrou da escola, entraram o chefe militar e a equipe de resgate para socorrer essa menina. Hoje, ela anda normalmente. 

Nunca vi o general se vangloriando de seus feitos, vários deles heroicos. Só o via se vangloriando de seus cavalos, de como eles tinham saltado bem, a cada dia que chegava à SAE/PR, depois de tê-los treinado. O entusiasmo era nítido em sua voz. Assim como presenciei esse entusiasmo quando estávamos no Rio de Janeiro, em missão, e passamos pelo Pão-de-Açúcar. Repetidas vezes, ouvi ele dizer “isso aqui é maravilhoso!”. Próximo a aterrisagem na capital federal, novamente escutei sua voz entusiástica: “Giovanni, ó Brasília, ‘vem’ ver!”. Naquele momento, compreendi que, independente de sua posição e de suas realizações, não há vanglória maior nem melhor do que ser apaixonado pela vida.

Em pequenas atitudes, o general facilmente conquista a simpatia de qualquer um. O homem que esteve presente no jantar de comemoração do meu aniversário é o mesmo que era tratado como um “rei” pelas tropas jordanianas da MINUSTAH. Exatamente o mesmo sujeito, sem pompa ou soberba. Aquele que, no último dia 23, reuniu amigos e familiares em seu jantar de despedida e deixava transparecer alegria e empolgação, consciente de que sua missão no Congo, embora hercúlea, não é irrealizável. 

Trabalhar com o general foi, para mim, uma honra que não poderia imaginar nem conseguiria descrever. Mais do que trabalhar, conviver. Nesta semana, ele embarcou para Nova Iorque e, exatamente no dia de seu aniversário, 2 de junho, partirá para o Congo. Fico agora, assim como milhões de brasileiros, africanos e pessoas de todo o mundo, na torcida pelo seu sucesso. Que essa nova esperança, de sangue verde e amarelo e de bem com a vida, floresça naquele solo tão manchado por guerras, frustrações, violência e desamor. 

Boa sorte, general Santos Cruz! Força, muita força!


Categorias: Brasil, Defesa, Organizações Internacionais, Paz, Post Especial, Segurança


6 comments
Augusto Seixas
Augusto Seixas

Tive a honra de ser comandado por ele na 3ª Cia da Escola Preparatória de Cadetes do Exército em 1984. Em uma época em que não se ouve mais isto, ele é simplesmente um herói brasileiro.

Anonymous
Anonymous

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Anonymous
Anonymous

Moro em Cuaiba, sou coronel Bombeiro, conheci o Gen Santos Cruz quando aqui ele comandou a 13ª Bda Inf Mtz, fiz amizade com ele e ate hoje mantemos contato, gosta de um bom churrasco e é violeiro toca e muito bem. Falei com ele justamente um dia antes dele embarcar para NY desejando a ele muito sucesso na nova missão. Pessoa humilde todos aqui em Cuiaba o admiravam e o admiram.Carlos Alexandre Rodrigues Coronel - Cel BM

Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

A equipe agradece os comentários. De fato, assim como o Giovanni, tive a oprtunidade de conhecer o general pessoalmente, e assino embaixo o que foi dito. Se trata de homem digno e competente, que muito tem a engrandecer o Brasil - e oferecer ao mundo nessa nova missão.

wonderingaloudagain
wonderingaloudagain

É sempre ótimo ler sobre pessoas competentes rumo a missões boas. Tudo de bom ao general Santos!

Miguel
Miguel

Tivemos aulas juntos! Fantástica pessoa, general cujas estrelas são insuficientes para atestar o caráter, o conhecimento e a simplicidade.