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Quando a estupidez tenta vencer a sensatez

 

[15:10] Quito, Equador 

Acredito que todos já tenham sido atingidos por notícias, rumores e eventos do dia de hoje no Equador. Mais do que revisar as notícias, trago um relato do que tive a oportunidade de presenciar e a repercussão local.  

Foi uma manhã confusa, para utilizar um eufemismo. Começo meu dia com um colega de trabalho me abordando com a seguinte frase “os militares tomaram o aeroporto de Quito”. Relembrando a recente história equatoriana, obviamente que a primeira menção que me veio a minha cabeça foi a um possível golpe de Estado. Minutos depois, acreditei que tudo estivesse melhor. Notícias davam conta que Rafael Correa estava dialogando com os manifestantes, primariamente membros das forças policiais e armadas contra a nova Lei para os servidores públicos, que propunha o presidente e que o Congresso colocava em discussão.  

Caminhando pela região central de Quito, vi que policiais tratavam de causar desordem nos transportes, obstruindo ruas e impedindo o funcionamento dos corredores de ônibus por meio barricadas. Enquanto isso, criminosos tiveram oportunidade de agir sem a sanção policial, aproveitando para saquear estabelecimentos, roubar bancos e provocar ainda mais desordem. A ordem democrática foi exposta. Não só em Quito, mas também em Guayaquil e Cuenca. 

Em pronunciamento na Praça Grande (onde está localizado o Palácio de Governo), Ricardo Patiño, ministro de Relações Exteriores, conclamou o povo a sair às ruas para defender o Estado equatoriano. Os populares reunidos na Praça Grande ecoavam “a pátria unida jamais será vencida” com suas bandeiras em punho. Patiño ainda pediu aos cidadãos que se dividissem em dois grupos, o primeiro que rumasse junto aos ministros do Estado a resgatar o presidente e um segundo grupo que permanecesse no local para defender o Palácio do Governo. 

Rafael Correa está no hospital da polícia e, segundo seu próprio relato, havia tentativas de invadir seu quarto para ameaçar sua integridade física. Meios de comunicação locais afirmam que o presidente está seqüestrado e foi ferido durante a manhã. Correa fora contundente em discurso aos policiais reunidos em um quartel de Quito, citando os inúmeros benefícios e melhorias que seu governo teria oferecido a categoria. Terminou dizendo: “Querem matar o presidente? Estou aqui!” 


 

A mensagem dos dois setores, policial e militar, foi clara. Veio de várias formas: tomada da pista do aeroporto de Quito, recusa ao diálogo com o ministro da Defesa, impedimento do acesso de congressistas ao prédio do Congresso Nacional, forças policiais descumprindo seu dever constitucional, ruas bloqueadas e uma suposta tentativa de impedir a transmissão dos meios de comunicação públicos. A comoção é grande, a incerteza também. Um golpe a democracia ou a uma figura política poderia desencadear eventos ainda mais graves. A institucionalidade democrática foi defendida por governos latino-americanos, prefeitos de cidades e regiões importantes no Equador, pela Cúpula militar do país, além de setores populares.

 

Mais que uma análise, fica meu relato. Esperemos que os pedidos de pacifismo abram caminhos para o diálogo e a plena restauração da ordem, serviços e instituições democráticas. E que a sensatez prevaleça.

Obs: Todos os canais de televisão aberta estão transmitindo a cadeia nacional, através do canal público.  

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Categorias: Américas, Conflitos


1 comments
Mário Machado
Mário Machado

Antes de tudo folgo em saber que vc não sofreu danos físicos devido a desordem. Como coloquei em meus textos não sei se é golpe ou "baguncismo", de toda forma é inaceitável a quebra da disciplina militar. Gostaria de saber notícias de Loja, onde tenho vários amigos, mas meu provedor de internet está com problemas de DNS. Espero que a calma retorne o quanto antes. Temo por aventureiros políticos querendo aparecer e forças externas.Abs,PS: Obrigado pelos links.