Post do Leitor

Post do leitor – Wilson Pedro Té

[A importância dos estudos e textos sobre a África é incontestável. O terceiro continente mais extenso do planeta, e o segundo mais populoso, apresenta uma riqueza cultural ímpar, uma expansão econômica recente e uma complexidade social capazes de centralizá-la no debate internacional. Mesmo assim, a escassez de textos sobre o continente ainda é um problema grave, já debatido em algumas de nossas postagens. Por isso mesmo, é com enorme alegria que publicamos um texto sobre a África, e ainda melhor, escrito por um leitor africano. Wilson Pedro Té, natural de guiné-Bissau e mestrando do programa de pós graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP), hoje nos premia com esse excelente e importante post sobre como a África Ocidental se transformou em uma importante região de trânsito para o tráfico de drogas internacional. Caso tenha um assunto preferido e a vontade de publicá-lo em nosso blog, mande um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]

África Ocidental, teatro de tráfico de drogas 

A África Ocidental é uma região do continente que inclui os seguintes países: Benin, Burkina Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné-Bissau, Guiné Conacri, Libéria, Mali, Mauritânia, Niger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo. Esses países foram colonizados pelas potências europeias (França, Inglaterra e Portugal), sendo que o processo de descolonização iniciou-se em 1957, com a exceção da Libéria, e culminou em 1975. 

No que se refere ao tráfico de drogas, o cultivo é destacado principalmente em três países da América Latina (Bolívia, Colômbia, Peru), onde as folhas de coca são transformadas localmente em cocaína, depois exportados principalmente para América de Norte e Europa Ocidental, passando pela África Ocidental. De acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, 2012), embora em declínio, os mais importantes destinos destes mercados são os Estados Unidos da América, absorvendo cerca de 157 toneladas de cocaína por ano (36% do total mundial, em estimativas de 2009). 

A partir de 2004, África Ocidental se tornou uma importante área de trânsito para o tráfico de drogas destinado ao mercado europeu e americano. Entre 2005 e 2007, as apreensões têm aumentado na África Ocidental e nas redondezas. Chegando da América do Sul, principalmente através de via marítima, mas também aérea, as principais vias de entrada de drogas na África Ocidental são: primeiramente, as costas da Guiné-Conacry e da Guiné-Bissau, e ainda, o Golfo de Benin (Gana, Togo, Benin e Nigéria). 

Além disso, alguns fatores podem ser aventados para explicar este novo papel da África Ocidental no tráfico de drogas. Inicialmente, citamos o fortalecimento dos controles nos aeroportos e portos europeus dos aviões e navios vindos da América Latina, a situação geográfica da sub-região do oeste da África, muito próxima de América Latina, e menos de duas milhas de quilômetros distante do sul da Europa, onde a quantidade de cocaína importada está aumentando. 

Ainda, o contexto “Pós-conflito” de alguns países da África Ocidental, também conhecidos como países da CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), a presença da corrupção nos vários níveis de forças de segurança, de justiça e política de vários países, a fraca rentabilidade das atividades econômicas legais, em um contexto de crise e de redução da demanda, diminuição da ajuda ao desenvolvimento, são, entre outros, fatores que favoreceram o surgimento e desenvolvimento de tráfico de drogas nesta região da África. 

O tráfico de drogas na África Ocidental tem consequências negativas, sendo uma delas é o grave problema da saúde pública. Tem‐se constatado que, em meio aos grupos vulneráveis, tais como os consumidores de drogas, as doenças infeciosas espalham‐se muito rapidamente. Em Cabo Verde, por exemplo, a prevalência geral do HIV/AIDS é de 0,8%, ao passo que atinge quase 14% entre consumidores de drogas. 

Em todos os países, os principais atores que intervêm na área de segurança e defesa são os militares e policias. Porém, na África Ocidental, os principais colaboradores dos traficantes de drogas são esses dois atores. Qual será, portanto, a solução para África Ocidental no combate ao narcotráfico? Será que a DNA pode combater o tráfico de drogas na região por conta própria, sem a colaboração das autoridades desses países?


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