Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor e graduando em Ciências Sociais, Victor Uchôa, nos enviou mais um texto muito interessante. Desta vez, o tema é nossa rejeição em comer carne de cavalo. Vale a pena conferir! Lembrando a todos que quiserem postar na Página Internacional, que basta enviar um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]

Por que ainda não inventaram o Mc Horse?

O escândalo da venda de carne bovina com traços de carne de cavalo esteve nos noticiários nas últimas semanas. Sabemos que se trata de um problema econômico e politico. No entanto, pretendo usar esse acontecimento para traçar um paralelo entre a alimentação e a cultura ocidental. Vamos a ele. 

Em fevereiro de 1930, milhares de pessoas marcharam pelas ruas do centro da cidade de Chicago. A crise econômica iniciada pela quebra da bolsa jogou milhões de americanos na situação de não conseguirem prover ao menos a própria alimentação. Nessa época surgiriam como solução os famosos hambúrgueres, inicialmente lanches de rua muito baratos. A outra ideia para o fim do problema, a mesma que levara milhares de pessoas indignadas ás ruas, foi o inicio da comercialização de carne de cavalo, ao custo de um terço do valor da carne bovina, nos mercados do país. 

A venda da carne de cavalo foi um dos maiores fiascos da indústria alimentícia do começo do século XX. Pensando que o consumidor americano compraria baseado apenas no preço, os produtores de carne esqueceram-se das implicações culturais que permeiam os hábitos alimentares. A exposição de carne de cavalo para consumo humano na época foi recebida com asco e revolta. 

Uma das teorias que explicaram esse fato histórico americano trata de como há influência nos hábitos e valores dos alimentos de acordo com a analogia que fazemos em relação aos animais e seres humanos. Os seus idealizadores defendem que quanto menor a proximidade entre os animais e suas partes do corpo, maior o valor econômico da carne. Explicando em poucas palavras, há preferência pelas partes do boi sem similaridade com órgãos humanos, como a picanha ou a alcatra, que teriam maior valor monetário e cultural em relação a partes como a língua, o fígado e o pescoço, por manterem menor aproximação com a anatomia humana. 

Em outro momento, chegamos ao ponto central dos fatores sociais que levaram ao protesto em 1930. Comemos carne de vaca e de porco com facilidade, animais que já nasceram em nosso processo industrial para serem abatidos em massa. Entretanto, temos mais dificuldade em comer a carne de cavalo, um animal que por vezes é de estimação ou utilizado em trabalhos humanos como o transporte de cargas. Finalmente, há um tabu em relação à carne de cachorro, certamente os animais com quem mantemos as mais fortes relações afetivas. Observando outras culturas, notamos como essa hierarquia de valores e aceitação por tipos de carne é modificada, dependendo do papel que os animais ocupam enquanto interagem com seres humanos. 

O problema da mistura da carne equina é motivado pelo não cumprimento do tipo de mercadoria estipulada nos contratos. Mas a indignação com o caso pode ter outros fatores. Os órgãos responsáveis pela inspeção da carne afirmaram que o seu consumo não traria riscos à saúde. Então, por que proibiram a sua venda? Parece certo que ninguém compraria um produto que promete algo sendo outro. A sua comercialização seria até mesmo antiética. Mas para a população, umas das motivações para a recusa não estaria no fato de ter nojo de se alimentar de carne de cavalo? Talvez até mesmo dó de consumir um animal que por vezes é de estimação, ou que minimamente está em contato com o ser humano enquanto cumpre trabalhos. Certamente, assim como muitos outros, eu pensaria bastante antes de ingerir carne equina. Na opção de outro animal, a rejeitaria sem pensar. 

Agora, façamos uma abstração. Imaginem se ao invés de traços de cavalo, achassem traços de carne de cachorro! Os cães são o limite de animais próximos de serem sagrados que é permitido pelos costumes e a religiosidade ocidental. Certamente, o produtor flagrado nessa fraude jamais venderia novamente, o chamariam de genocida, milhares sairiam às ruas defendendo a sua condenação a cadeira elétrica. Claro, o exemplo de carne de cachorro é um exagero para produzir uma reflexão final: 

Nós não comemos quem ou o que premiamos com traços humanos. Em partes, a indignação com a carne de cavalo reflete uma preocupação e uma oposição também culturais.


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