Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor Victor Uchôa, graduando em Ciências Sociais pela Unicamp, nos brindou com um excelente texto sobre a cruel, porém real, realidade do tráfico internacional de pessoas. Lembrando a todos que  quiserem ter seus posts aqui no blog que basta enviar um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]


Humanos de segunda classe

A atual novela “Salve Jorge” trouxe à tona pela primeira vez ao grande público o problema do tráfico de pessoas no Brasil. Assim, o assunto se transformou em uma espécie de moda das discussões cotidianas. Entretanto, a necessidade de adequação da trama ao gosto do público fez com que ela fosse ineficaz em demonstrar a dimensão do problema, tanto em quantidade de pessoas exploradas, quanto as reais condições em que vivem. Esse crime é tratado pela ONU como o mais hediondo praticado pela humanidade. 

Em nosso país são movimentados aproximadamente 32 bilhões de dólares ao ano com essa atividade, sendo o mais rentável dos crimes, superando em muito o tráfico de drogas. No mundo, é o terceiro negócio que envolve maior movimentação financeira, também chegando a envolver cerca de 2,4 milhões de pessoas exploradas por ano. Mesmo assim, o assunto seguiu longe dos noticiários nacionais, que deram maior atenção a praticamente todos os outros tipos de ações criminosas, a despeito da dimensão desse problema. Essa falta de interesse da imprensa é facilmente explicável. 

O trafico internacional de pessoas envolve basicamente a exploração de crianças e mulheres, que são forçadas por meio da violência e da fraude a se mudarem de seus países, na esperança de uma oportunidade. Diferentemente das personagens principais da ficção, a falta de direitos e de cidadania é iniciada na própria terra natal. Muitos dos refugiados e imigrantes de países periféricos não possuem a documentação que garante os direitos civis em seus próprios países. A exclusão tem rosto de dupla cidadania. No caso brasileiro, a maioria dos casos ocorre com mulheres, negras e de baixa renda, o que é comumente reconhecido na sociologia como uma espécie de santíssima trindade da vulnerabilidade. 

A insignificância dos explorados explica uma questão que pode surgir. Como uma teia criminosa tão ampla e tão óbvia se mantém com certa tranquilidade, permanecendo ilesa a justiça dos países e dos holofotes da mídia? A resposta é simples. Refugiados e imigrantes pobres de países periféricos são facilmente tratados como pessoas sem importância, tanto pelas autoridades dos países em que foram retirados, quanto dos que se tornaram seu destino final. Eles praticamente não existem. Assim, a grande maioria dos casos é completamente desconhecida, não tratados pela imprensa, enquanto os casos noticiados são as raridades que fogem a regra de exploração dos seres humanos em piores condições possíveis. O número de casos expostos é bastante reduzido. O tráfico de pessoas consegue ser o mais rentável dos crimes, enquanto tem rosto de problema pouco prolifero. 

O sucesso na exploração de pessoas em péssimas condições econômicas e jurídicas não tem como seu único exemplo o tráfico de pessoas. O mesmo pode ser visto no Brasil em um caso que em muito se parece a esses crimes, como os bolivianos que participam de trabalhos análogos a escravidão em fábricas de tecidos, ou com a prostituição infantil, que em sua maioria envolve crianças em situação de extrema pobreza. Recentemente, nosso próprio STF livrou uma dezena de acusados de estuprarem uma criança de 12 anos, por esta supostamente se prostituir. A justiça brasileira pode achar plausível que uma pessoa nessa idade possa tomar decisões autônomas de sua vida, e que a relação sexual com um adulto seja feita com consentimento. 

Claro, desde que essa criança seja parte das pessoas sem rosto ou dignidade. Pesquisas financiadas pelo escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) atestaram que um dos principais motivos para a facilidade da manutenção desses esquemas criminosos é da falta de importância dada ao tema pela sociedade civil. Afinal, grande parte da população acredita que foram essas mulheres culpadas pelo seu mal, ora por ganância, ora por pura vontade de servir como prostitutas. 

Outra ideia comum é a de que tais pessoas estejam em melhores condições sofrendo exploração do que anteriormente, vivendo como miseráveis em seus países. Uma tragédia justifica a outra. A falta de direitos outorgada por viverem em um país como imigrantes ilegais é por fim legitimada pelo discurso de criminalização da vítima, ato bastante comum no Brasil, sobretudo quando os crimes são sexuais e contra mulheres. Não à toa o nosso país é campeão mundial em pessoas exploradas. E Assim, o ato mais hediondo do mundo e o terceiro mais rentável fecha sua área de proteção graças à falta de interesse da sociedade dos países envolvidos sobre quem são tais explorados. Afinal, quem daria grande importância aos males de humanos de segunda classe?


Categorias: Brasil, Mídia, Post do leitor


3 comments
Anonymous
Anonymous

Olá Victor! Adorei as reflexões propostas! Concordo com as suas falas quando diz que essas pessoas praticamente não existem aos olhos alheios e reforço que, talvez, anterior aos tipos de violência materiais (física) aos quais são expostas, as vitimas do tráfico sucumbem a uma primeira: a invisibilidade. E questiono-me se dentre as tantas questões que envolvem essa teia criminosa, este não seja um dos pontos centrais. Escrevi algo semelhante aqui http://www.paginainternacional.com.br/2012/08/ideias-que-transcendem-fronteiras-post-9.html. Veja se puder/quiser/interessar. Talvez o texto traga um tom mais ingênuo e otimista, tendo-se em vista que a novela não tinha entrado no ar ainda. Obrigada por fazer o tema circular e meus sinceros parabéns pelo artigo. ;)Tamiris

Anonymous
Anonymous

Olá Tamiris! Seu comentário chamou muito a minha atenção, sobretudo quando cita a invisibilidade como determinante a exploração dessas pessoas. Foi exatamente esse ponto que inicialmente chamou minha atenção e me levou a escrever. O primeiro contato com o assunto foi exatamente em uma aula de sociologia em que a pesquisa do professor era exatamente sobre a relação entre não inserção social e exploração no Brasil. São o que chamamos de pessoas dentro da área de vulnerabilidade. Um dos tópicos tratava sobre o crime organizado, que além de usufruir de de um infinito poder financeiro e de uma extensão de influência que envolve sistemas econômicos, governos etc, ainda utiliza em todo o seu processo pessoas em situação de exclusão. São as pessoas que recrutam para fazer o "serviço sujo", os explorados, os usuários etc. Vide aqui no Brasil a relação do tráfico de drogas internacional e os seus empregados, a maioria moradores de favelas e comunidades pobres. O tráfico de pessoas no Brasil não foge a essa regra. Interessa aos chefes do crime que não só eles, mas que também seus subordinados e vítimas sejam desapercebidos. Já o exemplo da novela é bastante interessante por ser atual e uma das poucas vezes que a mídia deu foco ao tema. Mas além disso, é interessante notar que o tráfico de pessoas no Brasil está fortemente vinculado a exploração sexual da mulher, que ocorre também dentro do país. A compra de pacotes de viagens por estrangeiros que incluem entre seus "serviços" a prostituição é bastante comuns. E não são comprados em agências de viagens nebulosas ou fantasmas. Já aqui no Brasil, nenhum consumidor desse pacote precisa recorrer aos porões ou a locais desabitados para utilizá-lo, inclusive quando as garotas exploradas são menores de idade. O crime ocorre um tanto quanto às claras. A novela foi um grande salto nas discussões sobre o tema, mas não expôs com clareza uma verdade incômoda: a quantidade de pessoas exploradas e do dinheiro que envolve todo o processo. É incrível conhecer com as pesquisas sobre o tema o quão comum e próximo de nós é praticado esse crime. A exploração sexual envolve mais de 1 milhão de pessoas ao ano em nosso país. Achei também bastante interessante o seu texto, falamos de coisas bastante parecidas. Essa é uma das discussões que mais me chama a atenção. Obrigado por enriquecer a minha postagem com seu comentário!Victor

Raphael Lima
Raphael Lima

Victor,Excelente texto. De fato, o tráfico internacional de pessoas é o pior tipo de crime e, como você bem notou, não parece merecer nem mesmo uma breve citação no Jornal Nacional ou em noticiários por aí. Denunciar na novela já é um começo, mas a questão acaba se tornando mais um recurso narrativo de que de fato uma denúncia. A Carta Capital publicou, acredito que no mês passado, uma reportagem exclusiva (de capa inclusive) sobre o tema. Não encontrei no site deles, mas aqui vai uma breve matéria sobre o tema: http://www.cartacapital.com.br/politica/violencia-contra-mulheres-brasileiras-transpoe-fronteiras-diz-ministra/Parabéns pelo texto! Apareça sempre por aqui!