Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor e graduando em Ciências Sociais, Victor Uchôa, nos brindou com mais um excelente texto sobre fraudes no meio científico. Dissertações de mestrado, teses de doutorado, artigos emuitas outras produções falsas são o tema desse excelente post. Lembrando a todos que é possível postar na Página Internacional! Basta enviar um texto para [email protected]! Boa leitura!]

O Preço da Ciência

A renúncia da ministra da educação alemã, Annete Schavan, foi o capítulo final de mais uma história envolvendo política e fraudes em pesquisas. A denúncia de plágio de uma figura do alto escalão do governo alemão pegou de surpresa a comunidade científica internacional. Mas a verdade é que os escândalos envolvendo essa comunidade estão se tornando cada vez menos chocantes, dada à quantidade de casos descobertos. 

No Brasil, país um tanto famoso pelo tipo de comportamento a que carinhosamente apelidamos de “jeitinho”, as fraudes científicas e curriculares para a obtenção de vantagens são bastante comuns. No passado recente, até mesmo a então provável futura presidente da República, Dilma Roussef, teve de admitir erros em seu histórico acadêmico, que apontava dois títulos de pós-graduação nunca adquiridos. O currículo do atual ministro da educação, Aloísio Mercadante, sofreu do mesmo engano. Em outro escândalo ainda maior, grande parte da alta cúpula da USP esteve envolvida em denúncias de plágio, alteração de dados, de notas e de todo o possível. 

Problemas com fraudes científicas muitas vezes são mais prejudiciais do que os casos que levam alguma obtenção de vantagem pessoal. Afinal, pesquisas por muitas vezes definem políticas públicas, leis e posicionamentos de grupos de poder, a respeito de diversos temas. As pesquisas sobre o aquecimento global são um grande exemplo. Determinados resultados de pesquisadores, depois de alterados, aumentaram o status do problema de negativo a catastrófico, com verdadeiras projeções apocalípticas para a humanidade em um curto período de tempo. Com isso, doações a grupos envolvidos no tema dispararam, o que fez crescer a descrença nas boas intenções de algumas ONGs e no crédito de alguns cientistas que davam embasamento aos seus discursos. 

Evidentemente, não só entre os ecologistas se escondem os pesquisadores que abraçam as ideias e o dinheiro de determinados grupos enquanto apresentam seus resultados. Talvez esteja na exploração dos campos de areia betuminosa, no Canadá, o caso de enganação científica mais nociva ao planeta atualmente. Com a apresentação de relatórios nebulosos e a omissão de alguns dados, alguns cientistas tiveram papel determinante na vitória das empresas interessadas na exploração da matéria-prima, a despeito da catástrofe ecológica que essa ação pode acarretar. A areia betuminosa, segundo alguns resultados científicos, consegue ser cerca de três vezes mais tóxica e nociva ao meio ambiente do que qualquer outro tipo de produto para combustíveis. 

A utilização política da ciência, inclusive com mentiras, não é nenhuma novidade do século XXI. A Medicina e a Anatomia já foram utilizadas para a comprovação da superioridade de raças, a defesa da eugenia e do papel da mulher como apenas reprodutora e mantenedora do lar, entre outros absurdos. Realizava-se a medição do crânio, algumas partes do corpo, inventavam tantas outras observações, e ali estava a prova. A antropologia é outra ciência de um passado para ser esquecido. O seu nascimento serviu exclusivamente a legitimação de que os europeus dominassem povos primitivos, segundo alguns pensadores “incapazes de cuidarem de si próprios”. 

O aumento das denúncias de fraude assusta. Ainda mais em tempos em que o alcance da ciência e da tecnologia é tamanho, que ações de ambas podem influenciar decisivamente aspectos a vida na Terra, para o bem ou para o mal. O prejuízo de fraudes em pesquisas que servem ao interesse de grupos egoístas pode ser muito maior do que a alteração de quem vai permanecer ministrando cursos em sala de aula, ou que vai obter um cargo na direção da instituição, quem irá trabalhar em um ministério ou ser o próprio ministro.


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