Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor e graduando em Ciências Sociais pela Unicamp, Victor Uchôa, nos brindou com um um excelente texto sobre a política e eleições na Europa. Lembrando a todos que, se quiserem postar na Página Internacional,  basta enviar um texto para [email protected]! Boa leitura!]

As margens da solução

A esperança é a última que morre, afirma o ditado popular sem que ninguém o conteste. Pelo menos até o surgimento da crise econômica europeia. O continente está há meia década mergulhado em problemas sem soluções, tempo suficiente para que fossem feitas as mais diversas análises. Ainda assim, o tema e a crise estão longe de serem esgotados. 

A eleição italiana ocorrida no final de semana foi a mais recente demonstração de como esse momento afeta a confiança da população quanto aos atuais líderes governamentais. Independentemente da vitória apertada da coalização de centro-esquerda, seguida de perto pelo partido conservador de Silvio Berlusconi, o que mais chama atenção é o comportamento do eleitorado quanto à aceitação de partidos até então inexpressivos. Uma coalizão liderada por um humorista alcançou o terceiro lugar e uma forte representação na câmara. 

Desde o início da crise, as eleições em grande parte dos países europeus, com exceção a Grã Bretanha, vêm apresentando uma tendência de crescimento dos pequenos partidos. O caso francês do crescimento do antes secundário partido nacionalista Frente Nacional, liderado pela família Le Pen, é o maior exemplo desse fenômeno. O crescimento das pequenas legendas diante dos anteriormente detentores do poder parece bastante comum. Ainda mais em tempos de crise e piora de qualidade de vida, em que o descontentamento é crescente. Mas se observarmos mais de perto, veremos uma anormalidade. O que não é comum é o posicionamento político desses partidos. 

Nos últimos 20 anos, a política europeia construiu uma forte estabilidade entre as bandeiras defendidas pelos partidos políticos dominantes em cada país. A alternância do poder funcionou mais como revezamento de líderes do que de ideias. Não à toa sempre ouvimos e lemos sobre a vitória de um partido de centro-esquerda, de centro-direita ou de apenas centro. O termo “centro” poderia ser facilmente substituído por “igual ao anterior”. A verdade é que, enquanto governo, foram todos mais ou menos idênticos. Na maioria das vezes a grande divergência entre esses partidos se deu quanto ao alcance das políticas assistencialistas e a dimensão do apoio a políticas liberais, o que definia qual palavra viria à frente do termo “centro”. Isso até a crise. 

A piora econômica não somente desacreditou a população europeia quanto à política. Ela ameaça detonar a convergência de ideias dominantes criada pelos países europeus, e com ela toda a estabilidade. Os partidos que crescem são, na maioria das vezes, os de extrema-direita, marxistas, comunistas ou até mesmo de identidade próxima ao nazismo. Por vezes ocorrem casos menos “ameaçadores”, como foi o italiano, em que a surpresa foi a aceitação da população de promessas populistas. 

A extrema direita foi a que menos amenizou as suas defesas ideológicas para vencer a batalha eleitoral. Ao contrário, as utilizou como trunfo. A afirmação de que as mazelas sofridas pelas nações europeias ocorrem por culpa dos imigrantes, das minorias ou até mesmo de conspirações internacionais contra seus países, como a criação da zona do Euro, são cada vez mais comuns. A Europa ressuscita fantasmas do passado para garantir o futuro. 

O retorno dessas ideologias antes limitadas ao gosto de pequenas minorias sem poder de decisão política abre algumas questões. A convergência de ideias entre os partidos foi por muito tempo contestada como antidemocrática. Até mesmo hoje, quando o sistema financeiro internacional reage mal às pesquisas eleitorais que colocam na liderança partidos fora do estabelecido, há quem enxergue uma imposição de interesses de grupos poderosos sobre a vontade do povo. 

Distante da discussão de que o ressurgimento de certos partidos e ideais segue uma tendência mais plural e democrática de divisão de poder político, uma dúvida mais urgente ainda paira. Com a chegada desses partidos ao poder, teremos mais soluções ao momento difícil da população europeia ou esta será assombrada por outros fantasmas ainda piores? Os partidos fora do centro crescem à custa da esperança do fim da crise. Cabe a eles, pois, a tarefa de fazer com que a população que os elegeu continue acreditando que a esperança é a última que morre.


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