Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor e graduando em Ciências Sociais pela Unicamp, Victor Uchôa, nos brindou com mais um excelente texto. Desta vez sobre os preparativos para a Copa no Brasil e as consequências nacionais. Lembrando que todos podem postar na Página Internacional, basta enviar um texto para [email protected]. Boa leitura!]

Carnaval, futebol e samba

Recentemente, o Brasil viveu um dos momentos de maior destaque internacional em sua história. A vitória na disputa para ser a próxima sede tanto da Copa do Mundo de futebol e das Olimpíadas de 2016, em um espaço de dois anos, fez com o mundo voltasse por um instante o olhar para o país. 

Com exceção do prefeito de Tóquio, que chegou a chamar a vitória do Rio de Janeiro como sede olímpica de “resultado político e obscuro”, a maioria dos países e da mídia internacional recebeu a escolha com certa naturalidade, uma reafirmação da estabilidade econômica e da maturidade alcançada nos últimos anos. 

Aqui no Brasil, como esperado, a euforia com o resultado seguiu a preocupação de que os problemas internos muito conhecidos pela população afetassem os dois eventos. Parte da mídia direcionou o foco de sua cobertura e das suas cobranças a marcha de construção dos estádios e dos prédios esportivos. Ocorre que o Brasil, mesmo bastante criticado, chega à reta final de entrega das obras da Copa dentro do que era previsto, sem dramaticidade. No entanto, o êxito das obras não pode mascaras os diversos fracassos que o país não foi capaz de evitar em todos esses anos de preparação. 

Os problemas iniciais de atraso, que seriam incontornáveis em outros países, aqui não afetaram o cronograma. Porém, um alto preço foi pago. Foi somente graças a flexibilidade jurídica que torna possível um grande aumento nos custos das obras, como também a aceitação de que novas licitações de última hora sejam aprovadas, que o país evitou até aqui o fiasco de não respeitar os prazos estipulados pela FIFA e o COI. O atraso inicial no nosso caso, inclusive, já serve como desculpa a novas manobras desse tipo, que enchem as contas bancárias das empresas responsáveis pelas obras e facilitam desvios de verbas públicas. 

Problemas de infraestrura, como nos transportes públicos, trânsito, qualidade dos aeroportos entre outros, persistem sem solução. Inclusive, propostas de melhoria feitas pelos governos federais e estaduais foram retiradas de pauta ou atrasadas para um momento posterior a esses eventos. A Copa e as Olimpíadas foram defendidas como incentivadoras dessas melhorias, como provas da importância de ser a sede dos dois principais eventos esportivos do mundo. 

Já as questões humanas, da melhoria da qualidade de vida com a realização dos eventos no país ainda são mais duvidosas. Inclusive, mesmo durante a realização da Copa do Mundo e das Olímpiadas, tanto a população quanto os turistas terão de conviver com o medo da criminalidade crescente. A expulsão de parte da população para a construção de algumas obras e a falta de planejamento ao desenvolvimento de áreas carentes nos entornos dos estádios tornam a realidade ainda mais contrastante, e os benefícios de ser sede ainda mais questionável. A falta de certezas aos ganhos da população ao término das Olímpiadas, mesmo após a grande quantidade de investimentos, seria uma tragédia. A vergonha internacional de mostrarmos um Brasil caótico fora dos ginásios esportivos seria a consequência final dos fiascos da preparação brasileira. 

A verdade é que o Brasil tem experiência na realização de grandes eventos, reconhecida pelos maiores especialistas e investidores. Essa afirmação se torna evidente ao observarmos a explosão do número de festivais de música, fóruns internacionais, reuniões de negócios e festas regionais, como o carnaval, todos realizados com êxito. 

A própria escolha para ser sede dos dois maiores eventos do mundo seria uma provar por si só. O problema do país nunca foi o de não conseguir realizar eventos satisfatoriamente. Ele é, e ao que tudo indica continuará sendo, o momento da volta á realidade. O mundo fora do estádio ou do ginásio que teima em continuar a existir. O trânsito caótico, a criminalidade, a falta de transporte publico e aeroportos. Principalmente, a massa de excluídos dos benefícios da grande festa. Aqui, o carnaval ainda não sobrevive ao fim da avenida.


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