Post do Leitor

Post do Leitor – Raphael Camargo Lima

[Pessoal, recebemos mais um post do nosso leitor Raphael Camargo Lima, aluno do 2º ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca. Desta vez, ele trata do falecimento de Houssein Ali Montarezi, uma autoridade religiosa iraniana, e os desdobramentos deste acontecimento. Apreciem a leitura! Só para lembrá-los, quem quiser postar no blog, basta nos enviar um e-mail com o post.]

A volta dos que já foram


O clima de festividades de fim de ano parece tomar outros rumos no Oriente Medio. E no Irã, nem mesmo se Papai Noel desse as caras o clima poderia ficar mais agitado. Desde o falecimento de um dos Aiatolás (clérigos de significativa importância religiosa) do Irã, Houssein Ali Montazeri, no último dia 19, Teerã tem sido palco de constantes e reincidentes protestos contra o atual governo de Mammoud Ahmadnejad. O funeral do líder religioso concentrou policiais, religiosos, oposição e governistas num mesmo ambiente, não muito ameno. Os protestos levaram até a paralização dos precedimentos e a intervenção da polícia local, ao som de manifestantes gritando pelo fim do atual governo. Montazeri era mais do que um líder religioso, fora fundador da República Islâmica em 1979, um dos idealizadores da Constituição e principalmente uma importante figura da oposição. Mas uma coisa é o que ele representou, outra é o que seu falecimento representa ou pode desencadear.

Em um governo regrado às sombras do autoritarismo, como o do Irã, aos poucos parte da população vai se privando dos tão conhecidos princípios democráticos e gradualmente vai deixando de lado críticas ao governo em virtude da possível repressão. O que a moveria novamente em torno desses princípios ou de um governo mais democrático são alguns dos aspectos das chamadas “identidades”, consideradas por muitos como comunidades imaginadas que vibram em torno de um passado comum e expectativas conjuntas. Um dos traços que marcam essas comunidades são os mártires. Figuras que podem não ter tido grande representatividade no momento em que viveram, mas que são construídas como grandes heróis em busca de um bem maior a determinada população.

Agora pensemos o Irã de novo.

Seria essa uma tentativa de se construir um mártir que possa motivar mais a oposição a reagir contra um governo por demais autoritário? Não se pode pensar que uma figura como Montazeri pode urgir esse grupo a buscar de forma mais firmemente uma democracia mais bem consolidada, ou simplesmente um sentimento anti-governista mais forte?

Esta, na minha opinião, é a raiz primeira desses protestos em Teerã. Paralelamene, o esforço contrário é também grande, o que demonstra a capacidade criativa de um governo incapaz de silenciar essa voz da oposição pelo seu peso religioso, e que agora busca silenciá-lo depois da morte, conduzindo-o ao esquecimento.

Se religiosamente, os Aiatolás podem compreendidos como sinais de Deus, aqueles que são iluminados com a palavra divina, no caso particular de Montazeri pode-se dizer que vai um pouco além, é também um sinal de palavra para a oposição.

Se religiosamente, os Aiatolás podem compreendidos como sinais de Deus, aqueles que são iluminados com a palavra divina, no caso particular de Montazeri pode-se dizer que vai um pouco além, é também um sinal de palavra para a oposição.


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