Post do Leitor

Post do leitor – Raphael Camargo Lima

[Pessoal, o post abaixo foi enviado hoje pelo leitor Raphael Camargo Lima, do 2° ano de RI da UNESP – Franca. Acompanhem a interessante leitura!]

O Problema da Guerra e o Nobel da Paz

Obaminha paz e amor


Seriam as motivações de um governante o suficiente para garantirem-lhe credibilidade perante a comunidade internacional? Teriam importância todos os discursos emancipatórios contra a prática da guerra quando acompanhados da inação? No próprio campo acadêmico das Relações Internacionais, alguns autores clássicos buscaram a resposta para essa questão, como Hans Morgenthau em sua seminal obra “A Política entre as Nações”. O autor acreditava que a política deveria ser entendida por meio das ações dos estadistas, e que cometiam falácias todos aqueles analistas que buscavam interpretá-la por meio das motivações dos atores. Bom, no campo teórico isso faz muito sentido, mas no campo da prática as coisas parecem ser um pouco diferentes e aparentemente envolvem algumas outras variáveis, principalmente quando se trata de nosso Tio Sam.

Recentemente o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama foi contemplado com o prêmio Nobel da Paz, posto assim, no mesmo patamar de grandes ativistas pela paz como Kofi Annan, Jimmy Carter, os Médicos Sem Fronteiras e outros muitos militantes da paz e dos direitos humanos. Agora convenhamos, o que realmente foi feito por Obama em prol da paz? O único avanço concreto fora o decreto para o fechamento da prisão de Guantánamo no início desse ano.

Mas todas aquelas conjecturas sobre guerra, muito bem concebidas, que se configuraram como promessas símbolo de sua campanha, como a retirada das tropas do Afeganistão e Iraque, ainda permanecem no plano das idéias, sem jamais ter se consolidado inteiramente. Discussões foram iniciadas, claro, mas o impasse interno sobre o aumento de tropas é tão evidente, que não se pode prospectar o fim dessas guerras. Em contrapartida deve-se entender também as dificuldades de realizar tais feitos, uma vez que um governo não se constitui unicamente pelo seu chefe de Estado e Governo, o que garante suma relevância a outros fatores chave como bases parlamentares e a viabilidade de se realizar esses projetos.

Existe, portanto a pressão interna para que a Guerra do Afeganistão não se torne um novo Vietnã. Ademais do orgulho que rega a questão da retirada das tropas, coexistem também, percepções diferenciadas sobre essas guerras dentro do próprio governo e dessa forma configuram-se diferentes lobbies sobre o tema. O comandante de operações no Afeganistão, Stanley A. Mc Chrystal, por exemplo, é o maior pivô nas pressões para um aumento de contingente nessa guerra, afirmando que o presidente deve fazer o que for preciso para por um fim a essa guerra. Para clarificar um pouco mais a situação, podemos ter em vista também que somente uma minoria da população apóia essas guerras. Em recente pesquisa de opinião nos EUA publicada pela folha online no dia 26/10/2009, é apontado que somente 26% da população apóia o envio de mais tropas ao Afeganistão. Assim, Obama encontra-se posicionado no olho de um furacão de grupos de pressão e lobbies.

Não se pode muito prever quais as direções que a guerra e o governo Obama irão tomar e nem será de grande valia filosofias sobre os valores por trás desses eventos. Todavia pode-se com certo êxito notar um conjunto de contradições entre o discurso de Barack Obama e as operações no Oriente Médio. A ironia reside no fato de que no mesmo momento histórico em que o governo estadunidense discute o envio de mais tropas para o Afeganistão, Obama é considerado o mais novo arauto da paz. Haveria uma lógica implícita nisso?

Talvez seja esse o ponto seminal, a pedra basilar da compreensão desse inusitado evento. Um prêmio dessa magnitude tem um significado muito mais subjetivo do que objetivo. Ou seja, serve como forma de urgir os policymakers estadunidenses a tomar posições mais condizentes com os discursos proferidos, em direção do fim da guerra. Mas esse trabalho deve ser realizado com certa prudência e rapidez, antes que o governo do partido democrata caia em descrédito e acabe sem base parlamentar nas próximas eleições do congresso em 2010. O Nobel da Paz é um depósito de confiança no discurso de Obama e uma exigência de accountability vertical da sociedade internacional.

Se foram esses os reais motivos da comunidade internacional ao conceder esse prêmio, jamais teremos conhecimento. Sejam quais forem os motivos esperamos observar os efeitos em curto prazo. Acredita-se, assim, que nesse conturbado novo milênio as vias de paz podem ser diferenciadas e as motivações dos atores possam significar algo a mais. Se o Nobel de Paz será uma dessas novas vias de paz, somente o tempo dirá. . .


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2 comments
Raphael Lima
Raphael Lima

Obrigado mesmo, Alcir.Sempre que possível escreverei algo por aqui. E mais uma vez parabéns pelo blog que está ótimo.Abraços

Alcir Candido
Alcir Candido

Raphael, nem preciso falar que seu post foi legal, né?Apareça sempre por aqui!Até mais!