Post do Leitor

Post do Leitor – Raphael Camargo Lima

[Caros leitores, o aluno do 2º Ano de Relações Internacionais da Unesp-Franca, Raphael Camargo Lima, mais uma vez contribuiu com a Página Internacional. Apreciem este interessante post que trata do incansável discurso de mudança, que já contagiou o imaginário político na América Latina, e marca sua presença nas atuais eleições chilenas.]

Mais um discurso de mudança?

Propaganda do candidato derrotado ‘Marco’. No Chile, o voto só é obrigatório para quem se inscreve como eleitor, por isso, há disputa pelos potenciais eleitores não inscritos.


E a nova onda das Américas é o tal do discurso de mudança. Essa ferramenta política passou a ser usada por candidatos para fins eleitoreiros, mesmo quando as tais mudanças não representam grandes rupturas no atual curso da política interna e exterior.

Ouvimos por muito tempo discursos de Lula e Obama levando essa premissa à exaustão. E agora, não diferente ocorre nas eleições presidenciais do Chile realizadas no dia 13 de dezembro de 2009. O discurso central do candidato favorito Sebastián Piñera, representante da legenda de centro-esquerda, Aliança para Mudança, enfocou-se também de mudanças. Mudança de uma direita há muito rotulada de conservadora e por demais vinculada à imagem do ditador Augusto Pinochet.

Entretanto, a “cara da mudança” chilena não apresenta propostas tão inovadoras e nem muito diferenciadas daquelas que levaram a atual presidente Michelle Bachelet à vitória. As questões centrais abordadas apontam até para uma espécie de continuísmo das políticas atuais. O consenso sobre condução dos fundamentos de uma economia liberal de mercado entre partidos de direita esquerda será mantido, mas a maior “inovação” será continuação dos programas sociais de Bachelet. As outras “mudanças” que poderiam vir a alterar os caminhos da política interna são por demais gerais e tratam de questões muito abertas como maior combate à corrupção, melhoria da gestão pública e garantia de maior apoio à classe média.

A idéia do “em time que está ganhando não se mexe” parece ser bem seguida, contudo, com alguns disfarces e fortalecimentos aqui e acolá.

Se for possível apontar para qualquer ruptura nessas eleições, ela se encontra muito mais no campo das idéias do que no campo da prática. A direita chilena intenta alterar sua imagem de conservadorismo. Há mais de 50 anos que não é vista com um ar triunfante no primeiro turno das eleições, sendo que a vitória nas eleições presidenciais por mais de 20 anos foi atribuída ao partido de centro-esquerda Concertación. Agora, a história parece ser outra. Piñera busca a renovação da imagem da direita chilena, explicitando maior flexibilidade, pragmatismo e dinamismo em sua gestão.

Mesmo o candidato da coalizão de centro-esquerda da Consertación, ex-presidente, Eduardo Frei não se mostra ainda um páreo duro frente a esse movimento de renovação da direita. No primeiro turno desse ano não cativou grandemente a população como em pleitos anteriores, obtendo aproximadamente 29% dos votos e o passe para o segundo turno em 17 de janeiro de 2010. A esquerda também aponta para essa necessidade de um desses movimentos renovadores, pois nessas eleições apareceu fragmentada em 3 candidatos (Frei, Jorge Arrate e Marco Enríquez-Ominami) de partidos diferentes.

Parece que o discurso da mudança é cada vez mais legitimado como ferramenta política eficaz, e nos países da América Latina, as bases governistas e de oposição a cada dia mais se tornam unificadas em termos de propostas para políticas públicas, sociais e econômicas. Assim os partidos e candidatos brincam de alterar suas imagens como figuras públicas e de enterrar heranças de apoio a plataformas políticas impopulares. E nesse muda aqui e muda acolá os únicos que continuam são os eleitores, que aos poucos não compreendem mais as diferenças entre plataformas.


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