Post do Leitor

Post do leitor – Marcelo dos Santos Durante

[Pessoal, recebemos um interessante post do leitor Marcelo dos Santos Durante, graduando em Relações Internacionais pela UNESP, campus Franca. Nesta oportunidade, ele debate a crise do FMI e suas implicações, vale a pena conferir. Lembramos a todos os leitores que, se quiserem escrever para o blog, basta mandar o texto para o e-mail da Página Internacional – [email protected]. Boa leitura!]

Em Tempos de Crise

O Fundo Monetário Internacional (FMI) passou, recentemente, por uma crise interna. Seu Diretor-Geral, o francês Dominique Strauss-Kahn, foi acusado de assediar sexualmente uma funcionária de um hotel de Nova Iorque. Por causa dessa denúncia, Strauss-Kahn foi detido. Renunciou, dias depois, de seu cargo no comando do FMI. Devido à dúvida sobre a credibilidade da vítima, supostamente uma imigrante ilegal envolvida com tráfico de drogas, os promotores dos EUA decidiram retirar as acusações contra o ex-diretor da instituição.

Para a sucessão no comando do FMI foi escolhida Christine Lagarde, a então ministra das Finanças de Nicolas Sarkozy. Mesmo sendo a primeira mulher a assumir o mais alto cargo da instituição financeira (o que é um avanço importante), Lagarde é europeia e sua candidatura teve amplo apoio da União Europeia e dos EUA. Essa pode ser uma evidência de que a reforma pleiteada pelos países de crescente importância global (notadamente os BRICs) e prometida pelas lideranças do FMI demorará a concretizar-se.

Em meio a essa turbulência institucional, o FMI ainda precisa administrar uma crise econômica sem precedentes na zona do euro. Cabe à instituição conseguir, dos governos que pedem auxílio, as garantias efetivas de que eles adotarão as medidas “recomendadas” para sanar as contas públicas e saldar o(s) empréstimo(s). A questão é que, para o FMI, só existe uma única forma de política econômica eficaz: liberalizar, privatizar e desregulamentar. E os efeitos colaterais desse tripé são conhecidos: recessão, desemprego, diminuição nos investimentos sociais e aumento do fosso que separa ricos e pobres.

Ao desconsiderar a influência das particularidades sociais e institucionais na conjuntura econômica e condicionar os empréstimos à garantia de adoção dessas medidas tidas como “eficazes”, o FMI faz com que suas recomendações adquiram um caráter de imposição. O exemplo do chamado Plano Brady é interessante. O Plano foi lançado no final dos anos 1980 com o objetivo de solucionar a crise da divida latino-americana. Consistia na troca dos contratos da dívida dos países que tinham decretado a moratória por títulos que seriam honrados pelo governo dos EUA. Tal mecanismo também foi recomendado para países como a Bulgária, Nigéria e Polônia.

Atualmente os analistas do FMI propõem uma versão atualizada do Plano Brady para socorrer os países europeus imersos na crise. O pacote de medidas foi executado sem considerar o complexo quadro político-econômico latino-americano; tampouco avaliou a vicissitude da convulsão que as economias em transição no leste europeu passavam no início dos anos 1990. E será reeditado para conter os ventos da crise que ameaçam soprar sobre toda a União Europeia. Nenhum país esteve ou estará pronto para os efeitos colaterais do ajuste econômico. Mas quem não adotar as políticas e os mecanismos recomendados não verá a cor do dinheiro.

A única semelhança entre os países que aderiam às recomendações do FMI e os países europeus em crise atualmente é o déficit público. A dinâmica do sistema financeiro internacional mudou. Novos atores surgiram e pleiteiam cada vez mais espaço no cenário internacional. Novos contextos exigem novas ideias. Mas as instituições criadas para manter o equilíbrio no sistema internacional insistem em tomar suas decisões baseadas no mundo de décadas atrás.

Pois bem, os tempos de crise sempre nos convidam à reflexão. Talvez seja a hora de mudar.


Categorias: Economia, Post do leitor


0 comments