Post do Leitor

Post do leitor – Luís Felipe Kitamura

[Mais um bom post de um de nossos leitores. Desta vez quem escreve é o Luís Felipe Kitamura, aluno do 4° ano de Relações Internacionais da UNESP-Franca. Boa leitura! Se quiser escrever aqui, e-mail para [email protected]]

Uma nova política externa americana?

Desde sua chegada a presidência dos Estados Unidos, Barack Obama enfrenta diversos desafios e as mais variadas demandas. Esta semana vai ser especialmente importante para os rumos da sua administração, muitos assuntos sensíveis estarão em pauta. Primeiro, Obama irá a Londres para participar da reunião do G-20, para discutir suas políticas anti-crise frente à União Européia (que gostaria de construir uma arquitetura internacional anti-crise), a China (que defende a criação de uma moeda internacional de reserva) e os países emergentes (que procuram se projetar em termos de representação política). Ainda durante essa semana, se reunirá com o presidente chinês Hu Jintao – uma semana depois do Pentágono ter divulgado um relatório com referências a crescente militarização do gigante chinês, além de se encontrar com o presidente russo Dmitri Medvedev, com o qual os Estados Unidos desejam dar um “reset” em termos das suas relações bilaterais. Por último defenderá seu plano de ação para o Afeganistão na reunião da OTAN, desejando contar com o apoio dos seus países membros.

A grande mudança que se espera da política exterior de Obama é sua gradual desvinculação das políticas de segurança nacional, a qual imperava sob a administração Bush. Até o presente momento, no âmbito do discurso ao menos, parece que tem caminhado na direção correta, desde a resposta de Obama (em entrevista ao programa 60 minutes da rede americana CBS) ao ex-vice presidente Cheney (que na semana passada afirmou que o país poderia estar mais vulnerável a ameaças externas sob políticas na nova administração), passando pela mensagem ao Irã, pelo o desejo de reestabelecer o diálogo com países como Síria, pelo reconhecimento da necessidade de buscar alternativas as mudanças climáticas e pela a busca de uma maior cooperação com o México no combate ao narcotráfico.

Preocupa, no entanto, o mais novo plano para o Afeganistão. Parece mais do mesmo. O problema de fato, como Giovanni coloca em seu post, não é a falta de militares, mas sim o fracasso em si das políticas americanas para o Oriente Médio. A cada dia surgem novos desafios, frente à instabilidade no Paquistão e a imprevisibilidade do Irã.

Na revista Foreign Affairs deste bimestre, Bennett Ramberg defende a “retirada com honra” do Iraque (engolir o orgulho e partir, já que as instabilidades internas e disfunção política superam as tentativas externas de estabelecer a ordem, por isso partir o quanto antes seria a melhor forma de garantir os interesses dos Estados Unidos), utilizando os exemplos históricos como Vietnã e Camboja (1960´s), Líbano (1980´s) e Somália (1990´s). Trago essa referência para lembrar que historicamente os Estados Unidos sempre partem, mas o problema permanece ou se agrava. Ramberg ainda traz o caso da União Soviética, que durante a década de 1980 incorreu em prejuízos econômicos e políticos na tentativa de derrotar os afegãos.

Se o plano é derrotar o terrorismo com a força militar – tal qual Bush, o plano deve trazer mais um fracasso. Contudo, se conseguir maior engajamento de China, Índia e um maior diálogo com o Irã para resolver o problema da instabilidade da região, assim como o uso do serviço de inteligência ao invés da força militar, talvez exista uma real saída que não seja apenas a “retirada com honra”, mas a real estabilização da região. O problema é muito intricado e a solução deve ser multilateral, por isso é fundamental, nessa semana, Obama convencer os países membros da OTAN a apoiá-lo em seu plano “Afe-Paqui”. Acredito que é com isso que Obama conta. E Isso pode significar uma mudança do paradigma de política exterior americana para o Oriente Médio, como a atual prioridade, em concordância com os demais passos ensaiados por sua equipe em outras questões, o que seria, de fato, um grande progresso. Para encerrar, deixo aqui a declaração recente de Obama a respeito:

“The world cannot afford the price that will come due if Afghanistan slides back into chaos or al-Qaeda operates unchecked. We have a shared responsibility to act, not because we seek to project power for its own sake, but because our own peace and security depends upon it. And what’s at stake at this time is not just our own security; it’s the very idea that free nations can come together on behalf of our common security.” (Fonte: www.democracynow.org – The war and peace report – 30 de março)


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3 comments
Namoro na Boa
Namoro na Boa

Esta última declaração de Obama me lembra das demais presidentes norte-americanos, onde procura incluir todos os países numa cruzada contra a al-Qaeda, alegando que não é unicamente para a defesa americana, mas sim para todas as nações... Não lembra aquele outro? Bem, o tempo dirá. Espero que o Luis Felipe esteja certo, de qualquer maneira um excelente artigo.Abraços

Alcir Candido
Alcir Candido

Parabéns, Kita. Boas ponderações neste post!até mais