Post do Leitor

Post do leitor – Lívia Peres Milani

[Com as recentes notícias sobre o possível pagamento dos chamados “fundos abutres” por parte do governo argentino, a leitora Lívia Peres Milani, graduada em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Franca), mestranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP/ PUC-SP) e membro do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional (GEDES/UNESP) analisa a importância das crises econômicas para o futuro do país, bem como para seus vizinhos, incluindo o Brasil, e postula que a América Latina deve adotar posturas coesas para combater prejuízos financeiros na região. Caso queira publicar seu texto no blog, mande um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]

A dívida externa Argentina e a América Latina

Fonte: Epoch Times

Fonte: Epoch Times

Recentemente, os problemas decorrentes da dívida externa atingem de forma impiedosa a Argentina, que vinha mantendo o compromisso de pagar a seus credores, mas foi surpreendida por uma decisão da Corte Suprema dos Estados Unidos (EUA). A Justiça dos EUA determinou que o país pagasse integralmente os chamados “fundos abutres”, os quais compraram títulos da dívida argentina a preços irrisórios, provenientes daqueles credores que recusaram a proposta de renegociação. A dívida argentina fora reestruturada em 2005, quando se chegou a um acordo com 92,5 por cento dos credores.

A decisão da Justiça dos EUA torna-se ainda mais problemática porque significou que a Argentina tem que resolver essa situação para continuar pagando os credores da parte reestruturada da dívida. Apesar de ter depositado o dinheiro destinado ao pagamento de parcela do débito renegociado, a Justiça dos EUA considerou a transação ilegal e o país entrou em default técnico. No entanto, a Argentina resiste a pagar integralmente os “fundos abutres”, pois a existência de uma cláusula que determina o tratamento igualitário a todos os credores abriria a possibilidade de que toda a dívida fosse objeto de nova negociação e poderia significar que a mesma se tornasse muito mais alta.

Os acontecimentos atuais representam mais um episódio da dramática crise de 2001, que atingiu o país de forma generalizada, causando instabilidade política e econômica. Esse episódio foi um trauma para a Argentina e uma ocasião para que a América Latina repensasse sua postura e entendesse os problemas de aderir ao Consenso de Washington de maneira acrítica. Antes da crise, a Argentina era um dos países mais abertos da região e era considerada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) como um modelo aos países em desenvolvimento. No entanto, com a explosão da moratória, o FMI negou responsabilidade e qualquer ajuda. Paralela e atualmente, apesar de entender as contradições da decisão judicial, o governo dos EUA não busca reverter o processo.

 Apesar de o problema atual ser referente à Argentina, a questão da dívida externa não é isolada a esse país. Ao contrário, esse é um problema estrutural da América Latina, que condiciona e limita as possibilidades de desenvolvimento. Essa situação fica clara ao se pensar nos anos de 1980, conhecidos como década perdida, quando se assistiu a situações de moratória no México e no Brasil, as quais causaram problemas econômicos graves a esses países.

Além disso, um default oficial na Argentina não seria problemático apenas para esse país, mas teria graves consequências ao Brasil. A partir do momento em que possa significar uma crise no vizinho, os efeitos serão sentidos aqui, pois a Argentina é um dos principais destinos dos produtos manufaturados brasileiros. Ademais, assim como argumentado pelo ministro das Relações Exteriores brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, o episódio é um sinal de alerta, porque possui impactos em outros processos de renegociação de dívida externa.

Assim, o contexto atual mostra a necessidade de que a América Latina, e o Brasil em particular, apoie a Argentina e pressione para que sejam garantidas condições justas de renegociação da dívida, sem prejuízos para a economia do vizinho brasileiro. As resoluções em apoio à posição argentina, aprovadas na Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual EUA e Canadá se abstiveram, e em outros órgãos, como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e o Mercado Comum do Sul (Mercosul), são importantes passos nesse sentido.


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