Post do Leitor

Post do leitor – Isabela Pinotti

[Com a recente onda de protestos aqui no Brasil e o anúncio da presidente Dilma Rousseff sobre uma futura reforma política, a leitora Isabela Pinotti, graduada em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Franca), nos traz uma interessante análise sobre o processo de participação popular através da internet para a construção de uma nova constituição na Islândia. Caso queira publicar seu texto no blog, mande um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]

A participação política nos tempos da era digital 


 

A edição de agosto da revista Superinteressante trouxe uma entrevista com o cientista político islandês Eiríkur Bergmann, um dos integrantes do conselho formado para elaborar uma nova Constituição na Islândia. Se você não sabe o que se passou no país nórdico nos últimos tempos, aqui vai um breve resumo: a Islândia era considerada um país com ótima economia e índices sociais invejáveis. Entretanto, o jogo virou após a crise financeira de 2008. A economia do país foi à bancarrota, o desemprego cresceu, assim como a dívida pública. A Islândia teve que pedir socorro ao Fundo Monetário Internacional (FMI), mas pedir ajuda a este organismo internacional significa aceitar seu pacote de medidas de austeridade. Os islandeses não quiseram beber deste remédio amargo e foram às ruas protestar. A renúncia do primeiro ministro e a convocação de novas eleições não foram suficientes para arrefecer os ânimos, a população já clamava por uma nova Constituição. É aí que entra Bergmann e os outros vinte e quatro integrantes da comissão responsável pela elaboração de uma proposta de nova Carta Magna. 

O interessante é que a comissão resolveu integrar toda a população no processo de elaboração da proposta através da internet, mais precisamente por meio do Facebook. Segundo Bergmann, foi criada uma página na rede social para que as pessoas pudessem expor suas opiniões e sugestões. Também era possível entrar em contato com os membros do conselho através de e-mail, Twitter e até mesmo por ligações telefônicas. Ou seja, muitos canais foram abertos para que as pessoas passassem de simples espectadoras para reais atores do cenário político nacional. Os islandeses não desapontaram e atenderam massivamente ao chamado da comissão. 

Observando a experiência da Islândia e os protestos ocorridos em junho no Brasil, organizados não por partidos políticos ou sindicatos, mas principalmente através das redes sociais e articulados entre a própria população, é possível pensarmos sobre o nascimento de um novo tipo de participação democrática: aquela intermediada pela internet. E, justamente por essa tecnologia estar se tornando cada vez mais acessível, possui o poder de englobar cada vez mais pessoas a um processo político que antes se restringia e interessava a poucos. 

O governo Dilma propôs uma reforma política após os protestos, e fiquei imaginando como seria interessante se essa reforma, em vez de ser submetida a um referendo depois de pronta, fosse construída com a participação da população brasileira, expondo, através de canais criados na internet e fora dela, suas reais necessidades e carências, que são diversas devido às enormes diferenças regionais.

No entanto, é preciso atentar-se aos números. A Islândia é um país de 320 mil habitantes, com uma população relativamente homogênea, que apresenta altas taxas de alfabetização (99%) e de acesso à internet (95%). Já o Brasil, composto por 200 milhões de pessoas com costumes e necessidades extremamente díspares, amarga uma taxa de 22% de analfabetismo (isso sem contar os analfabetos funcionais). Além disso, o acesso à internet, apesar de estar muito difundido nas regiões sul e sudeste, ainda não está ao alcance de todos nas demais regiões.

Em um cenário como este, é quase utópico pensar que toda a população brasileira (ou a maior parte dela) atenderia ao chamado para uma participação democrática como a elaboração de uma reforma política (e conhecendo os políticos brasileiros, não seria estranho se usassem este caminho para conseguir a inclusão de seus interesses pessoais e partidários). Mesmo assim, seria importante que canais fossem abertos para a participação do povo brasileiro, que já provou em junho estar insatisfeito com a configuração política atual e mostrou que tem força e poder para operar mudanças. 

Para maiores informações clique aqui e aqui.


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