Post do Leitor

Post do leitor – Guilherme Backes

[Neste clima atual de mobilização e debate político em todo o território nacional, o leitor Guilherme Backes, acadêmico de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), nos brinda hoje com uma excelente reflexão para o blog. Confiram seu texto abaixo! Aproveitamos para agradecer as ótimas contribuições dos leitores e lembrar a todos os interessados que, para postar na Página Internacional, basta entrar em contato conosco pelo e-mail [email protected]. Boa leitura a todos!]

O Brasil em mobilização: desafios e oportunidades

As recentes manifestações que agitam as principais cidades brasileiras exigem uma profunda reflexão acerca do momento político pelo qual passa o Brasil. Após dias de estupor, uma série de contradições e de desconexões é arrolada pelos mais variados setores de nossa sociedade. Atores políticos dizem-se surpresos com a proporção dos acontecimentos; intelectuais dos mais variados matizes ideológicos titubeiam em oferecer respostas minimamente satisfatórias à luz das Ciências Sociais; uma miscelânea de demandas e de insatisfações compõe um processo equivocadamente interpretado.

Dentre tantas considerações, menciono, primeiramente, que nossos governantes bradavam em alto e bom som que o país se encontra em processo de desenvolvimento econômico sem precedentes. Baixo índice de desemprego, políticas de redistribuição de renda, maior acesso ao ensino superior, aumento do poder aquisitivo de milhões de famílias, diminuição das desigualdades sociais, ampliação de políticas sociais, inúmeras são as conquistas da sociedade brasileira que ocorreram nos últimos anos. No entanto, os protestos das últimas semanas demonstram que, muito longe do ambiente de estabilidade e de bonança erroneamente entendido por um segmento da classe política, o Brasil não constitui o mais recente paraíso das mil maravilhas.

Certo é que inegáveis são as mudanças sociais da última década, e negá-las consiste de desserviço para o aprofundamento do debate a respeito de nossa atual conjuntura. Por outro lado, a sociedade clama por mudanças significativas e urgentes. O distanciamento dos partidos políticos da realidade que circunda nossas demandas sociais, os subsequentes escândalos de corrupção, o incitamento à intolerância pregado em Comissões instituídas para a defesa dos direitos humanos, o desleixo com que bandeiras históricas da esquerda são tratadas por segmentos acomodados no establishment, o fim de uma pretensa pureza moral defendida pela esquerda tradicional, as flagrantes malversações de dinheiro público na execução de obras para a Copa de 2014 e o conluio com os setores mais arcaicos e reacionários da política nacional estimularam o surgimento de um denominador comum – a insatisfação generalizada. A partir desse sentimento compartilhado pelos mais distintos setores da sociedade brasileira, a impressão gerada é a de que as conquistas auferidas, ao longo dos últimos anos, não bastam. Nós, brasileiros, queremos mais! Queremos participar ativamente do processo político, conferindo-lhe um grau de legitimidade muito maior do que o existente até então.

Em segundo lugar, muito tem sido comentado e debatido sobre o perigo representado pela grande mídia e por segmentos à direita da política brasileira na condução do atual processo. Ora, todas as mobilizações das últimas duas semanas têm como origem a repressão policial a uma legítima manifestação da esquerda, a qual lutava pela redução da tarifa dos transportes coletivos da cidade de São Paulo. Admitamos, sim, que, com a retirada de cena do Movimento Passe Livre (MPL), a ausência de liderança tornou-se ainda mais premente. A consequência de tal lacuna incita a heterogeneidade do corpo que toma conta de nossas cidades, a demasiada amplitude de suas demandas, a abstração em torno de críticas vagas dirigidas a políticos corruptos e a aparente falta de direção de suas vozes. Todavia, enganam-se – voluntariamente ou não – aqueles que sucumbem ao desvario gerado pelo receio de um golpe da direita.

Evidentemente, a direita sempre esteve presente na seara política brasileira. Em diferentes momentos de nossa história política, abundantes são os exemplos da capacidade de influência de setores extremamente conservadores do empresariado e da política nacionais. A despeito de reconhecermos a presença, os interesses e as manobras desse grupo político, ledo engano seria superestimarmos seu respaldo na sociedade brasileira. Existem, sim, casos de flagrante atentado à democracia perpetrados por elementos infiltrados, de forma oportunista, no movimento de contestação ao descaso da classe política. Entretanto, pode-se asseverar, cabalmente, que a imensa maioria da população brasileira não defende a regressão à ditadura militar, tampouco outros fatores que compõem uma típica plataforma de direita. Se elementos de tal espectro ideológico – em suas facetas moderadas e extremadas – tentam moldar e canalizar o movimento em prol de suas causas políticas, é dever da esquerda continuar nas ruas e defender a originalidade e a legitimidade de suas demandas.

Finalmente, cabe mencionar a pretensa despolitização das atuais mobilizações. A rejeição à política como um todo demonstrada por uma grande parte dos manifestantes ressoa de maneira compreensível diante dos desmandos e das maracutaias identificados com inúmeros partidos políticos tradicionais. É natural, portanto, que símbolos partidários – tais como bandeiras, cartazes, camisetas, etc. – sejam, previamente, rechaçados por pessoas que expressam seu descontentamento com o sistema político vigente. Ainda assim, imperativo é preservar a liberdade de expressão em um movimento democrático e, originariamente, de esquerda. A não identificação do movimento com partidos em especial não pode significar, em hipótese alguma, a negação da própria política, haja vista ser ela a única esfera onde nossas demandas serão ouvidas, debatidas e conquistadas. É sabido que o desmantelamento de partidos políticos, bem como a subjugação da política a movimentos disformes encontram respaldo na irracionalidade de regimes ditatoriais e, até mesmo, totalitários – tanto de direita como de esquerda, conforme analisado por Hannah Arendt. Nesse sentido, o apartidarismo do movimento em questão deve ser pautado por fatores construtivos e positivos, de modo que o sistema político seja oxigenado e adaptado às novas demandas da sociedade.

A desconstrução desordenada e inconsequente de símbolos e de estruturas representativas de nossa sociedade configura terreno fértil para a atuação de setores retrógrados e nefastos da política nacional. Sendo assim, o discurso da imprensa conservadora visa ao afastamento e ao escorchamento de partidos de esquerda para que a grande massa dos manifestantes seja direcionada à defesa dos interesses da direita – atingindo, justamente, o oposto da origem das manifestações de São Paulo. Ademais, cabe a reflexão acerca da manutenção ou não de grupos ligados à esquerda nas ruas, nas discussões das redes sociais e no debate imediato com a sociedade. Haja vista a proporção das últimas manifestações, a melhor alternativa seria retirar-se do processo e abrir mão da presente mobilização em favor de restritos grupos reacionários? Certamente, não!

Não se alude, aqui, à possibilidade de modelos políticos baseados em teorias execradas pelo próprio desenvolvimento do processo histórico. O mais importante, na atual conjuntura de nosso país, diz respeito à oportunidade de que mudanças criativas, reais e substanciais sejam impetradas por segmentos progressistas e de esquerda com a efetiva participação da sociedade brasileira. Sendo assim, afastada da demasiada utopia balizada pelo romantismo da esquerda clássica e o excessivo pragmatismo dos partícipes do sistema, a sociedade pode, sim, incitar uma onda de mobilizações com reivindicações concretas e ordenadas. O momento exige cautela e atenção a diferentes fatores, mas a subsunção da racionalidade política ao mero comodismo poderá tolher a capacidade de entendimento e de ação dos movimentos progressistas. O engajamento da esquerda (movimentos sociais e partidos políticos) deve, por conseguinte, ser exigido e afirmado por todos aqueles que se preocupam com o surgimento de figuras bonapartistas e demagogas, buscando-se, assim, a consolidação de nossa democracia, concomitantemente à ampliação da participação da sociedade civil. 


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