Post do Leitor

Post do Leitor – Fred Maciel

[Olá, pessoal. Recebemos uma importante contribuição para a Página Internacional. Desta vez, quem colaborou foi Fred Maciel, graduado e mestrando em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Campus de Franca – e também membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES). Seu post trata do emprego das Forças Armadas na América Central, uma região onde impera a iminência da ruptura constitucional. Vale a pena conferir!]

Uma influência conflituosa: as Forças Armadas na América Central

O atual conflito entre Nicarágua e Costa Rica pela região limítrofe do Rio San Juan, coloca em questão o papel e o desenvolvimento das Forças Armadas na região centro-americana, em relação especialmente ao Exército. A disputa gira em torno de uma denúncia costa-riquenha quanto a uma região chamada Isla Calero, na qual a Nicarágua supostamente teria ocupado indevidamente e causado danos ambientais. O governo nicaragüense declara que a região pertence a seu território e que mantém tropas somente para defender e evitar problemas fronteiriços.

Historicamente um país estável e ausente em conflitos regionais, a Costa Rica é considerada uma ilha de paz em meio à conturbada América Central. Na transição 1948-1949, uma nova Constituição aboliu o Exército. Por outro lado, a Nicarágua possui um passado bélico e pautado na atuação das Forças Armadas. Desde tempos de dominação externa, passando por ingerências estadunidenses e um longo e duro período ditatorial, a Nicarágua tem sua história marcada pelo protagonismo militar, em suas distintas formas e papéis, reforçada pela luta armada culminada na Revolução Sandinista de 1979.

Nesse sentido, pode-se analisar a atuação do Exército, e das Forças Armadas em geral, no âmbito centro-americano. Os conflitos inter-estatais, tão presentes no século XX, estão dando lugar a uma realidade que visa primordialmente as práticas multilaterais; ainda que os novos contextos gerem processos simultâneos de integração e fragmentação. Dessa maneira, o antigo esquema Estado-Partido-Exército, tão presente nos regimes pós-ditaduras, colocou em questão a instituição militar como representativa da sociedade e da nação em seu conjunto.

A tentativa de consolidação do Exército nessa região deu-se frente a um conjunto de atores fragmentados que ainda se debatiam em torno de uma reordenação dos sistemas políticos vigentes, ou seja, permeada por ajustes a interesses corporativos. Assim, é inegável que o estabelecimento de uma institucionalidade sólida para as Forças Armadas gerou, e ainda gera, conflitos nas esferas de interesse e de poder.

Porém, até que ponto a articulação entre poder político e poder armado, ou entre governo e Forças Armadas, pode facilitar ou conduzir situações de cooperação entre os países do istmo? O atual exemplo da disputa entre Nicarágua e Costa Rica reforça a idéia de que a participação de atores militares ou policiais apenas tornou o conflito mais agudo e com efeitos inesperados. Resta-nos refletir sobre o nível de participação e inserção das Forças Armadas nos governos centro-americanos. Necessidade ou mero reflexo de épocas anteriores? Parece que somente as futuras ações deixarão mais claras questões a esse respeito.


Categorias: Post do leitor


0 comments