Post do Leitor

Post do Leitor – Felipe Pötter

[Tenho o prazer de apresentar mais um post do leitor. Dessa vez, Felipe Pötter*, graduado em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Goiás (UCG), escreve sobrea utilização das novas formas de mídia na interação entre o governo Obama e a população norte-americana. Aproveitem a leitura!]

Obama, as forças profundas e as novas mídias

Em meados da década de 30 Pierre Renouvin apresenta às Relações Internacionais o termo “Forças Profundas” ao estabelecer a importância do estudo de diferentes aspectos, forças, influentes na política internacional e que portanto devem ser consideradas para o estudo da história.

Segundo Renouvin, um pensador base da escola francesa de Relações Internacionais, estas forças são múltiplas, partindo da política, economia geopolítica, sociedade civil, entre outras, e devem ser analisadas em sentido e intensidade de acordo com o período em que agem.

Foram os resultados destas forças que moldaram o sistema internacional, o vai e vem do pêndulo do poder, e são estas que por vezes aliam-se as aspirações de um individuo. Assim aconteceu durante a implementação da Raison d’etat de Richelieu, durante a unificação Alemã de Bismark, ou ainda, em um exemplo mais próximo a eleição do Tancredo Neves em 85 no Brasil.

Na última eleição norte-americana também podemos identificar situações que geraram tais forças. O desgaste tanto da imagem quanto da política norte-americana no meio internacional provocado pelas duas guerras em curso durante o governo Bush, o resultado da demora e baixas destas guerras na opinião pública, a crise econômica mundial com efeitos severos na classe média estadunidense, além da movimentação pendular esperada na sucessão presidencial do país foram, entre outros, fatores que demandavam uma mudança de postura de governo.

O candidato democrata Barack Obama utilizou-se dessas forças como seu superte de campanha. Seu discurso moldou durante o período de campanha a saída para varias destas questões. No entanto, sua concorrente à candidatura pelo partido democrata, a ex-primeira dama Hillary Clinton, também possuía discurso similar. Dentre as diferenças entre as duas pré-campanhas estava um dos trunfos de Obama até então: A utilização das novas mídias.

Desde o princípio, o atual presidente norte-americano fez uso de ferramentas não convencionais, porém muito eficazes, no meio político, afim de promover suas idéias e angariar apoio. Convencionalmente se denominam novas mídias aqueles meios de comunicação de popularização relativamente nova em vista aos convencionais rádio, televisão e imprensa, tais quais a internet, celulares, IPTV, entre outros.

A relação entre as chamadas forças profundas e as novas mídias começa na utilização deste meio por Obama. Através do uso destas novas ferramentas, e com um conteúdo surpreendentemente interessante em se tratando de um discurso político, um público maior foi alcançado. Não obstante o maior alcance, a abordagem do publico atingido é incomparavelmente mais participativa e transparente.

Assim, não só Barack Obama logra um maior alcance de suas idéias mas canaliza duas forças políticas em seu favor, uma vez que a sociedade civil obtém maior poder de participação e parcelas desta que antes não participavam ativamente da política vêem-se interessadas nesse debate.

Dia 20 de janeiro completou-se o primeiro ano de governo de Barack Obama, e apesar de toda sua desenvoltura pública, a popularidade do presidente estadunidense está aquém daquela esperada logo após sua eleição. Entretanto, as forças canalizadas pelo presidente ainda continuam o apoiando.

A participação pública continua sendo direcionada através de movimentos como o Organizing For America que orienta aqueles que apóiam o presidente a agirem como um grande grupo de stakeholders. Através de mídias sociais como o Twitter e Facebook, essa organização aponta àqueles cadastrados os meios de pressão a serem utilizados e organizando seus próprios, como a arrecadação de assinaturas para aprovação de projetos.

No que tange a demanda por transparência, pode-se citar a parceria de Obama com o site YouTube. O presidente, além de seu próprio canal, participou já por duas vezes de uma entrevista montada pelo canal CitzenTube na qual Obama respondeu perguntas em vídeo enviadas por usuários do site. É valido ressaltar também que todos os canais de comunicação de nova mídia utilizados são bilíngües, em inglês e espanhol, até mesmo a página da casa branca no Twitter, @thewhitehouse, tem seu equivalente na língua latina: @lacasablanca.

Nesse mesmo tópico também se pode citar o uso conjunto de multimeios, como os canais de transmissão via web e celulares. São disponibilizados tanto no blog da Casa Branca quanto no site oficial do presidente aplicativos para Iphone nos quais se pode assistir a discursos ao vivo do presidente, receber informações sobre comitês locais do Organizing For America e como opinar em enquetes de opinião, entre outras noticias sobre o governo.

A atitude do atual governo norte-americano é louvável. A atualização dos canais de informação e participação entre população e governo favorece não apenas às suas intenções políticas como também à todo o processo democrático.

Edward Carr, teórico de valor inestimável ao realismo, defendia a ação política racional como sendo aquela voltada pela busca de poder, e ainda, que os meios de obtê-lo mudam e atualizam-se conforme o contexto temporal. Assim sendo, ao utilizar novas formas de propagação de suas idéias, Obama consagra-se não apenas racional, mas também astutamente realista.

 

*Contato: [email protected]


Categorias: Cultura, Estados Unidos, Mídia, Post do leitor


1 comments
Bianca Fadel
Bianca Fadel

Realmente, constatar a importância das "novas mídias" no processo eleitoral (e mesmo durante o governo) de Obama é muito interessante ! Acredito que a própria 'mídia' pode ser vista como um ator de grande relevância nas RI contemporâneas...Resta saber apenas até que ponto o poder midiático sustentará a popularidade de Obama, considerando as dificuldades internacionais enfrentadas por seu governo. O Irã e o Afeganistão que o digam, né ?!Até mais ! ;)