Post do Leitor

Post do leitor – Danillo Alarcon

[Pessoal, dando continuidade às reflexões acerca dos 10 anos dos atentados do 11 de setembro, iniciadas aqui, temos um muito oportuno post do leitor, de nosso colega Danillo Alarcon, graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca e mestrando também em Relações Internacionais pela UnB. Boa parte das reflexões acerca das consequências dos atentados nesses últimos 10 anos se referem às relações dos EUA com o mundo, e nesse texto vamos ver o tema sob a ótica do “outro lado” – os que “pagaram o pato” após os atentados com a ação militar dos EUA. Vale a pena conferir! E fica o convite a todos que se interessarem a participar dessa discussão para mandar textos para o e-mail da Página Internacional – [email protected]]

Dez anos de uma “não-era”

O dia 11 de setembro de 2001 estará para sempre marcado como uma data para reflexão. A irracionalidade dos ataques terroristas ainda nos surpreende e o “terror” continua seu ciclo e perpetua sua função todas as vezes que as fatídicas imagens dos aviões atingindo as torres do World Trade Center são repassadas pela mídia.

De 2001 para 2011 muita coisa mudou. Consideremos que alguns séculos atrás um período da mesma extensão não traria consigo a percepção de tamanhas alterações. Contudo, é necessário cautela nesta análise. Olhemos algumas dos principais desdobramentos desde os atentados.

Não custa recordar que os ataques perpetrados pela rede terrorista Al-Qaeda levaram os Estados Unidos a uma guerra no Afeganistão e deram suporte para a criação de um discurso que auxiliaria na invasão do Iraque, para a derrubada do governo de Saddam Hussein. A priori, as duas intervenções militares tiveram objetivos não vinculados a regime político (no primeiro caso, a derrocada do Talibã, e no segundo, o temor das armas de destruição em massa), mas imbuído nos discursos e na ação que se passou nestes países após a ocupação, ficou-se claro que a exportação da democracia, pela via militar, estava em pauta – e esse foi um desserviço genuinamente americano à democracia propriamente dita.

A prática americana indica que o interesse nacional nem sempre é compatível com a ética e o cumprimento da palavra. Pois bem, o oxímoro a que se renega a “democracia” quando vinculada a outro termo com carga tão poderosa quanto “guerra” pode ter consequências deletérias: dessa vez, contudo, foram os EUA que se viram marginalizados, pois as fábulas contadas para justificar as duas guerras foram desconstruídas pelos fatos no campo de batalha e nas instâncias burocráticas.

Claro, nem tudo é negativo. Se analisarmos as situações no Afeganistão e no Iraque, percebemos certo avanço na construção de um sistema democrático (ao menos no que tange às instituições) nestes países. O Afeganistão ocupado em 2001 passou por um difícil processo de formação de um governo. Conseguiu organizar alguns pleitos que mesmo conturbados um grau razoável de participação populacional. Além do mais, mulheres foram eleitas, um fato que chama muita atenção quando se recorda o histórico de misoginia do Talibã. O Iraque, ocupado em 2003, teve eleições parlamentares em 2005 e 2010. Atualmente, com a retirada das tropas de combate americanas do Iraque e o apelo da sociedade americana (não tanto por parte das autoridades de Cabul) para a saída do Afeganistão, é pertinente que nos perguntemos quais são as chances desses regimes efetivamente se enraizarem!

Dez anos depois grande parte dos países muçulmanos sacolejou com a “Primavera Árabe”. Ben Ali (Tunísia), Mubarak (Egito) e Ghadafi (Líbia) são os grandes que já despencaram. E na base de todos esses movimentos estavam fatores como o desemprego, a deterioração das condições de vida e o descontentamento com governos que gradualmente tiraram suas credenciais de provedores de bens básicos, mas que não haviam concedido o devido contrapeso da representação. Nos casos de Afeganistão e Iraque, os mesmos fatores acima ressaltados se somam à crescente violência nas duas sociedades para minar os governos instalados após as devidas invasões.

No campo econômico, as guerras do Afeganistão e do Iraque minaram recursos da economia americana, que em 2008 se viu em uma situação complexa, com uma crise severa e que volta agora a se complicar novamente. Os EUA mantém ainda o seu potencial militar, sua capacidade de renovação tecnológica e de certa maneira suas reservas de “soft” e “hard” power (e estão cientes de que tem que usá-los com cada vez mais cautela). Entretanto, como ressalta Zakaria, o “resto” ascendeu. A China, o Brasil, a África do Sul, a Rússia e a Índia hoje figuram como global players, não somente por suas posições geográficas, mas pelos caminhos que trilharam ao longo desses últimos anos.

Além do mais, o maniqueísmo com que os EUA trataram o mundo durante o governo Bush não rendeu bons frutos: diminuiu o potencial de diálogo com países como o Irã e a Coréia do Norte, que acabou construindo sua bomba nuclear.

Em uma perspectiva ampla, que só o tempo nos dá condições de olhar, faltou a percepção de que o 11 de setembro tinha raízes históricas. Por muito tempo, em especial durante a Guerra Fria, tratou-se o mundo como um jogo de xadrez. Hoje, isso não é mais possível, muito menos desejável. E falta, nas proximidades do aniversário de dez anos dos atentados de 11 de setembro de 2001 a percepção de que o mundo não começou nem foi reinventado naquela data. Talvez houvesse esse desejo por parte de alguns, para justificar o redesenho da ordem internacional, dividida entre um eixo do Bem versus um eixo do mal.

É fato que alguns processos se aceleraram como a contestação da ordem hegemônica americana e a ascensão do resto. Parece claro, todavia, que os EUA de Obama perceberam que realmente não dá mais para seguirem caminhando como “Golias” em uma terra cheia de “Davis”.


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