Post do leitor – Danillo Alarcon

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[Hoje temos uma postagem muito oportuna e especial do nosso colega Danillo Alarcon, graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca e mestrando também em Relações Internacionais pela UnB, sobre a emancipação do Sudão do Sul. Aproveitem! E lembramos que se quiserem escrever para o blog, basta mandar o texto para o e-mail da Página Internacional – [email protected], fiquem à vontade para participar]

É bom chamar o síndico: al-Bashir e seu novo vizinho

O cenário internacional está em constante mudança. A imagem congelada do mundo que temos nos mapas e globos que ornamentam bibliotecas e escolas não dá conta deste processo, e a atualização é constante. Neste início do século XXI, algumas mudanças são consideráveis dentre as quais a criação de Estados como o de Montenegro, o de Kosovo, o de Timor-Leste e mais recentemente o do Sudão do Sul. A criação de um novo Estado suscita um bom número de questões importantes, desde o seu reconhecimento à própria forma como este foi criado. Este artigo tem, assim, por objetivo enfrentar algumas questões referentes à situação no Sudão do Sul, recém criado a partir da divisão do antigo Sudão.

A primeira consideração a ser feita é em relação à própria forma como esse novo Estado, com capital em Juba, foi criado. Um referendo foi adotado para tal consulta. Apesar da influência internacional pressionando para a aceitação deste tipo de meio político, Cartum – agora capital do ‘novo’ Sudão – respeitou e reiterou seu compromisso com os resultados obtidos em janeiro de 2011. Omar Al-Bashir, atual presidente do Sudão, demonstrou que a voz e os anseios do povo são dignos e passíveis de serem ouvidos, onde quer que se esteja. Ponto para as teorias democráticas neste quesito.

A influência estrangeira em assuntos internos de determinados países é o segundo elemento a ser ressaltado. O Estado hodierno não é este ente ‘mágico’ que muitos acreditam ser – indivisível, inviolável e insuperável. Aliás, quanto mais dependente economicamente, mais vulnerável se torna um Estado. Esta situação é, contudo, aplicada aos grandes países, que agora tem acesso às reservas de petróleo do Sudão do Sul, sem passar pelo empecilho “Omar al-Bashir”. Ou seja, a criação do novo Estado ressalta também a situação de emergência em que se encontram os consumidores de produtos advindos do petróleo.

A questão econômica é deveras importante, e é destacada como a terceira questão aqui analisada. O novo Estado congrega ao longo de sua fronteira norte boa parte das reservas de recursos naturais que antes pertenciam ao todo. Há inclusive uma zona fronteiriça que ainda está sendo contestada pelas duas partes. De um lado, há um enorme potencial para um conflito, entre dois Estados independentes, ou seja, não mais seria uma guerra civil. Isso poderia acarretar a influência de outros atores e fatores na possibilidade de um conflito. Do outro, existem possiblidades de cooperação, pois a estrutura para exportar e submanufaturar os produtos extraídos no sul, estão no norte. O interessante é que há possibilidades de escolhas, e o resultado disso só virá com o tempo. Além desta questão, deve-se ressaltar o peso que haverá de ter a China no novo país criado, já que no Sudão de al-Bashir ela é a grande investidora.

O quarto ponto ressaltado está relacionado às dificuldades ainda sentidas pelo ser humano em conviver com o diferente. Um dos fatores que motivou a divisão dos dois países foram as diferenças religiosas e étnicas. O sul é majoritariamente cristão e animista, enquanto que o norte é islâmico. Como o próprio termo já ressalta, cada novo país é “majoritariamente” uma coisa ou outra, o que reascende a preocupação de todos para com a situação criada nos novos países, e atenção deve ser dada ao trato das minorias em cada lado da fronteira. Além do mais, a situação no ‘novo’ Sudão não é nada animadora para boa parte da população que vive na região de Darfur, e nem mesmo para o Sudão do Sul, onde convivem mais de 60 etnias, com potencial para severas divergências.

A divisão de um país, devemos ressaltar, não cria somente um outro país, pois o Estado original deixa de existir para dar lugar a duas ou mais entidades. Essa pode ser a chance para um novo começo, mas “enquanto o mundo continua parolando”, nem o Sudão nem o Sudão do Sul têm reais condições de proporcionar boas condições de vida para sua população, quanto mais de assegurar a paz entre si, Al-Bashir continua sendo o mesmo facínora de antes da divisão e movimentos de resistência continuam causando muitos problemas nos dois lados da fronteira. Há, claro, motivos para comemorar, mas há muito trabalho a fazer, e neste quesito, os atores internacionais – quaisquer que sejam (outro Estados, organismos internacionais, ONGs, indivíduos, etc) – têm deixado muito a desejar.


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